Os meus amigos chamam-me Josefina. Não é o meu nome verdadeiro mas isso não importa. Acaba por ser mais bonito que o que me foi dado quando fui baptizada.
Nasci numa pequena aldeia perdida no interior. Era um lugarejo sem história. À muitos anos que não vou lá. E agora é demasiado tarde.
Quando fiz dezoito anos arrumei as malas e fui para a cidade. Esta cidade. Tinha sonhos para cumprir … e ilusões de uma vida melhor.
Fui trabalhar para casa de uma senhora mas acabou por não ser o que eu esperava. Trabalhava muitas horas e nunca podia sair sozinha. Eu queria descobrir as delícias da grande cidade. Era muito nova, diziam os senhores.
Como poderia encontrar o meu príncipe encantado se não podia sair sozinha? Tinha que encontrar outro trabalho. Mas como podia deixar a casa dos senhores se eles eram conhecidos na aldeia? E conheciam os meus pais!
Contentei-me com o presente que tinha. Mas nunca desisti dos meus sonhos.
Os anos foram passando. E a minha juventude ficou para trás. Os senhores foram envelhecendo. E eu também. O senhor foi o primeiro a falecer e, com a idade, a senhora foi acumulando doenças.
Um dia os filhos tomaram a decisão de a meter num bom lar para velhotes. Ali tinha acesso a bons cuidados e a pessoas que entendiam os seus problemas. O dinheiro nunca foi problema para eles. Depois venderam o apartamento e a mim, como agradecimento pelos anos que passei com ele, despacharam-me como um trapo velho. Deram-me meia dúzia de tostões e uma carta de recomendação.
Embora naquele tempo ainda fosse fácil arranjar trabalho, a idade já não perdoava. Ainda assim, consegui trabalho numa velha e carunchosa pensão.
Foi ali que conheci a Faustina. Foi ela a única e verdadeira amiga que tive neste mundo. Durante o dia limpávamos e cozinhávamos para os poucos clientes que tínhamos. E à noite, depois de terminar o trabalho, mergulhávamos nas alegrias da noite. Assim vivemos as duas durante alguns anos. Não tínhamos posses, partilhávamos um pequeno quarto no sótão da pensão e ganhávamos uma miséria. Mas éramos felizes.
Até que um dia a Faustina não conseguiu resistir à doença que a destruía por dentro. Nunca disseram o verdadeiro motivo, mas eu sabia qual era o mal que, dia após dia, lhe roubava aquele sorriso e as forças.
Quando a pensão fechou fiquei novamente sozinha. E de novo na rua. Sem sonhos e nenhuma ilusão de uma vida melhor. O príncipe encantado nunca apareceu e a casa bonita onde corriam dois meninos bem vestidos nunca existiu.
A partir daquele dia comecei a viver dia-a-dia. Conformando-me com o que tinha e tentando ter prazer nas poucas coisas que ia conseguindo fazer.
Continuei a ganhar dinheiro mas já não era como antes. Hoje uma pessoa como eu ganha pouco. E há dias em que não ganho nada.
“Olá formosura!”, alguém me gritou.
Olhei em todas as direcções mas não via ninguém. Continuei a andar.
“Aonde vais Josefina?”, alguém perguntou.
Olhei para trás. Foi então que o vi. À entrada da taberna. Fui ao seu encontro.
“Olá querido! Ainda estás nos copos?”, perguntei-lhe.
Ele não respondeu. Sentia-se envergonhado.
“Anda comigo! Vamos para o meu quarto.”
“Como foi o teu dia?”, perguntou-me enquanto caminhávamos rua abaixo de braço dado.
“Foi bom! Hoje tive bastantes clientes.”
“Esta noite posso dormir contigo?”, perguntou ele.
“Quanto estás disposto a pagar?”, perguntei. Ele deixou escapar a sua típica gargalhada.
Gosto de brincar com o Alfredo. É meu cliente e um amigo muito especial com quem costumo passar as noites. À muito tempo que não lhe cobro nada pelos meus serviços.
Nasci numa pequena aldeia perdida no interior. Era um lugarejo sem história. À muitos anos que não vou lá. E agora é demasiado tarde.
Quando fiz dezoito anos arrumei as malas e fui para a cidade. Esta cidade. Tinha sonhos para cumprir … e ilusões de uma vida melhor.
Fui trabalhar para casa de uma senhora mas acabou por não ser o que eu esperava. Trabalhava muitas horas e nunca podia sair sozinha. Eu queria descobrir as delícias da grande cidade. Era muito nova, diziam os senhores.
Como poderia encontrar o meu príncipe encantado se não podia sair sozinha? Tinha que encontrar outro trabalho. Mas como podia deixar a casa dos senhores se eles eram conhecidos na aldeia? E conheciam os meus pais!
Contentei-me com o presente que tinha. Mas nunca desisti dos meus sonhos.
Os anos foram passando. E a minha juventude ficou para trás. Os senhores foram envelhecendo. E eu também. O senhor foi o primeiro a falecer e, com a idade, a senhora foi acumulando doenças.
Um dia os filhos tomaram a decisão de a meter num bom lar para velhotes. Ali tinha acesso a bons cuidados e a pessoas que entendiam os seus problemas. O dinheiro nunca foi problema para eles. Depois venderam o apartamento e a mim, como agradecimento pelos anos que passei com ele, despacharam-me como um trapo velho. Deram-me meia dúzia de tostões e uma carta de recomendação.
Embora naquele tempo ainda fosse fácil arranjar trabalho, a idade já não perdoava. Ainda assim, consegui trabalho numa velha e carunchosa pensão.
Foi ali que conheci a Faustina. Foi ela a única e verdadeira amiga que tive neste mundo. Durante o dia limpávamos e cozinhávamos para os poucos clientes que tínhamos. E à noite, depois de terminar o trabalho, mergulhávamos nas alegrias da noite. Assim vivemos as duas durante alguns anos. Não tínhamos posses, partilhávamos um pequeno quarto no sótão da pensão e ganhávamos uma miséria. Mas éramos felizes.
Até que um dia a Faustina não conseguiu resistir à doença que a destruía por dentro. Nunca disseram o verdadeiro motivo, mas eu sabia qual era o mal que, dia após dia, lhe roubava aquele sorriso e as forças.
Quando a pensão fechou fiquei novamente sozinha. E de novo na rua. Sem sonhos e nenhuma ilusão de uma vida melhor. O príncipe encantado nunca apareceu e a casa bonita onde corriam dois meninos bem vestidos nunca existiu.
A partir daquele dia comecei a viver dia-a-dia. Conformando-me com o que tinha e tentando ter prazer nas poucas coisas que ia conseguindo fazer.
Continuei a ganhar dinheiro mas já não era como antes. Hoje uma pessoa como eu ganha pouco. E há dias em que não ganho nada.
“Olá formosura!”, alguém me gritou.
Olhei em todas as direcções mas não via ninguém. Continuei a andar.
“Aonde vais Josefina?”, alguém perguntou.
Olhei para trás. Foi então que o vi. À entrada da taberna. Fui ao seu encontro.
“Olá querido! Ainda estás nos copos?”, perguntei-lhe.
Ele não respondeu. Sentia-se envergonhado.
“Anda comigo! Vamos para o meu quarto.”
“Como foi o teu dia?”, perguntou-me enquanto caminhávamos rua abaixo de braço dado.
“Foi bom! Hoje tive bastantes clientes.”
“Esta noite posso dormir contigo?”, perguntou ele.
“Quanto estás disposto a pagar?”, perguntei. Ele deixou escapar a sua típica gargalhada.
Gosto de brincar com o Alfredo. É meu cliente e um amigo muito especial com quem costumo passar as noites. À muito tempo que não lhe cobro nada pelos meus serviços.
Copyright © 2013 Pedro Toscano
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