5 de janeiro de 2013

#19: O Miradouro

Era de noite e ela estava ali sozinha. No único lugar onde se sentia bem. Ouvia-se apenas o vento que corria por entre as árvores e, lá em baixo, o mar que açoitava as rochas. Era o seu paraíso.

Não havia mais ninguém ali. O que não sendo normal, lhe vinha muito bem. Assim tinha todo o tempo do mundo e não tinha que se preocupar com os olhares alheios.

Ela já tinha tomado a decisão. Já há vários dias que se tinha decidido por aquela opção. Mas quis dar-lhe outra oportunidade. Tirou o telemóvel do bolso do casaco. Correu a lista de contactos até encontrar o nome que pretendia. Carregou no botão verde e esperou.

As lágrimas caíam-lhe pelo rosto. O telemóvel tocou uma e outra e outra vez. Ninguém atendia. Notava-se que já tinham desistido dela. Ela também já tinha desistido dela mesma. Mas queria dar outra oportunidade. Começou a escrever uma mensagem. «Podemos falar?». Instantes depois aquela curta mensagem saiu em direcção ao seu destino.

A casa de banho estava completamente cheia de vapor de água. Tinham estado a tomar banho. Um longo banho. O espelho estava completamente embaciado. Ele foi o primeiro a sair do chuveiro. Ela permaneceu mais uns instantes. Ele enrolou a toalha à cintura e abriu a porta. Dirigiu-se ao quarto. Ela seguiu-o pouco tempo depois.

Quando entrou no quarto viu-o sentado na cama. Toalha enrolada à cintura e o cabelo ainda a escorrer água. No lugar onde estavam os seus pés formava-se uma pequena poça de água.

“Eu disse-te que ela não ia desistir tão facilmente”, disse-lhe ele passando-lhe o telemóvel para a mão.

Ela leu a mensagem. Tinha sido recebida há uns dez minutos.

“Respondo?”, perguntou-lhe ele, esticando a mão para lhe pedir o telemóvel. Ele sabia qual seria a resposta dela.

“Não quero que lhe respondas!”, respondeu-lhe ela atirando o telemóvel contra a parede.

Ele já a tinha visto dezenas de vezes naquele estado. E sabia muito bem o que poderia acontecer se fosse de encontro à sua decisão. Suspirou. Passou os dedos pelo cabelo. Levantou-se e agarrando um cigarro foi para a varanda fumar.

Fazia frio. Muito frio. Ela estava gelada.

Tinham passado mais de dez minutos desde que tentou ligar-lhe. Uma última oportunidade. Era a última. Depois desta, não haveria mais nenhuma. Desta vez marcou o número directamente. Já o tinha memorizado na cabeça. Tinha-o utilizado durante os últimos quatro anos. Foram centenas de conversas a todas as horas.

Mas ela sabia que não ia ter resposta. Pior que isso … agora já não dava sinal de chamada. Provavelmente tinha desligado o telemóvel.

«Não faz mal!», pensou ela. «Talvez seja melhor assim.»

Voltou a arrumar o telemóvel no bolso. Levantou-se e caminhou em direcção ao carro. Estava uns metros mais atrás. Fechou por completo o fecho do casaco. Assim já não tinha tanto frio.

Abriu o carro e entrou. Limpou as lágrimas com as palmas das mãos. A chave já estava na ignição. Sentia-se revoltada com tudo aquilo. Sentia-se humilhada. Sentia que tinham andado a gozar com ela durante os últimos quatro anos. Ela tinha-se entregado de corpo e alma. Tinha dado tudo o que tinha. Tinha perdido amizades. Perdeu um emprego. E agora tinha-se perdido a ela própria. Não podia continuar. As lágrimas insistiam em não parar.

Saiu novamente do carro. Apoiando os cotovelos no tejadilho do carro, fitou o horizonte. A lua reflectia no mar. Estava tudo tão calmo. Tão sereno. O vento insistia em levantar os seus longos cabelos negros. Ela não se preocupava. Depois olhou para onde se vislumbravam as luzes da cidade. Ali estava a dor. O sofrimento.

Era hora de arriscar. Tinha tomado a decisão e não ia voltar atrás. Entrou novamente no carro. Ligou o motor e engrenou a mudança. Ligou o rádio e procurou uma música agradável.

O seu olhar tomou a única direcção possível. Soltou a embraiagem e o carro pôs-se em movimento.


Copyright © 2013 Pedro Toscano

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