Eu não acreditava no que os meus olhos estavam a ver. Por momentos, pensei, que estivesse a sonhar. Mas não era um sonho. Ela estava mesmo ali à minha frente!
Estava em frente ao escaparate das revistas do coração. Continuava bonita. Quando foi a última vez que a vi? Não me lembro! A minha cabeça começou a fazer contas. Talvez há uns dez anos. Talvez menos. Ou não. Sim, dez anos. Quando acabámos o secundário. Depois os nossos caminhos seguiram rumos diferentes. Recordo que ela queria seguir para a Universidade e o meu caminho levou-me ao negócio de família. Aonde me encontro até hoje. Vejo-a a folhear páginas. E a lançar-me olhares sorrateiros. Acabo de atender a última cliente que tinha ao balcão.
Sempre tive um fraquinho por ela. Mas pertencíamos a mundos diferentes. Muito diferentes mesmo. Andámos sempre nas mesmas turmas mas pertencíamos a grupos diferentes. Íamos aos mesmos bares, mas em grupos diferentes. Naqueles tempos, os meninos ricos não se misturavam muito com os que vinham de fora da cidade. Foram poucas as vezes que estivemos os dois sós. No último ano do Liceu, contudo, estivemos mais próximos um do outro. Não andávamos com os grupos. Unia-nos uma amizade muito forte. Até que um dia me enchi de coragem e declarei-lhe o meu amor por ela.
Durante largos segundos, a minha memória viajou no tempo. Nem me apercebi que ela já estava ali mesmo em frente a mim. De repente, alguém passou por detrás de mim.
“Vê lá se acordas! Essa boazona quer ser atendida por ti.” sussurrou-me o meu pai ao ouvido, enquanto fazia de conta que procurava alguma coisa no armário junto a mim.
Foi quando acordei da minha viagem ao passado e dei com aquele sorriso maravilhoso. Quando se apercebeu que eu tinha estado ausente, ela deu um sorriso envergonhado e virou a cara para o lado. Tinha estado à minha espera, durante todos estes segundos que mais pareceram uma eternidade.
“Desculpa! Estava com a cabeça noutro lugar.” desculpei-me envergonhado.
“Ao sair do centro comercial, à esquerda há um cafézinho onde podem conversar à vontade.” atirou o meu pai, com aquele sorriso maroto que punha quando nos descobria, a mim ou à minha irmã, algum segredo relacionado com namoricos.
Sem saber bem como, de repente, já estávamos a descer as escadas rolantes do centro comercial. Minutos depois já estávamos na rua. Sentia-me em êxtase. Não podia acreditar no que me estava a acontecer. Ia tomar café com a rapariga dos meus sonhos. Dez anos depois, ela ainda se lembrava de mim. Durante a caminhada em direcção ao café soltou um «queria recomeçar onde tínhamos terminado» que me deixou bastante intrigado.
Sem me dar conta, o tempo foi passando. Ali estávamos os dois a conversar e a rir. Estava a ser uma tarde maravilhosa. As horas passavam e eu estava muito feliz. Muitas das vezes limitava-me a sorrir, ou a soltar alguma gargalhada quando recordávamos aqueles episódios caricatos que marcaram a nossa vida de estudantes do secundário. Mas, para mim, o mais importante era observá-la. Na minha cabeça ainda tinha aquela imagem de adolescente, magrinha e de cabelo preto comprido que lhe dava pelos ombros. Dez anos depois, apenas mudou o tamanho do cabelo. Continua magra, de formas esbeltas. E aqueles olhos verdes, que misturados com o negro do cabelo, me enfeitiçavam. Sempre me enfeitiçaram.
Não podia acreditar naquilo que me acabava de dizer. O meu coração começou a bater mais forte. E eu corei. Corei muito. O meu corpo insistia em trair-me. Ela tinha dito que se sentia muito feliz por me encontrar!
Foi numa reunião do pessoal do liceu que ela me encontrou. Não me encontrou aí porque eu não vou a esses convívios. Não me apetece conversar com pessoas que me trataram mal. Não gosto que acordem velhos fantasmas. Não gosto de recordar velhos episódios tristes da minha vida. Não me apetece saber da vida de mais ninguém. Cada ano que passa estamos mais velhos. Já haverá alguns carecas e outros barrigudos. Estas reuniões só têm um objectivo: saber da vida dos outros. Na minha rua, basta ir à mercearia do meu prédio ou à barbearia do senhor Francisco e, em menos de meia-hora, já sabemos todas os acontecimentos da semana. Mas se me encontrou através das reuniões anuais do liceu … acaba de subir uns pontos na minha consideração. A reunião anual do liceu claro está!
De repente, aquela conversa casual de amigos, passou a um plano mais íntimo! O «querer recomeçar onde tínhamos terminado» voltou outra vez à conversa. Falávamos da nossa vida pessoal. Algo que nunca tinha acontecido antes. A minha cabeça começou a pensar em algo mais sério. Já haviam passado dez anos, é certo. Mas no meu coração sempre morou a esperança. Não conseguia pensar noutro motivo para aquela afirmação. Deixei escapar um sorriso. Um daqueles sorrisos que dizem que estamos apaixonados. E ela deve ter adivinhado o que me ia no pensamento. Digo que deve ter adivinhado porque me retribuiu com um dos seus sorrisos maravilhosos que sempre me fascinou. Um sorriso bonito e quente. Um sorriso daqueles que nos deixa um arrepio a percorrer todo o corpo. E acariciou-me o rosto com a sua mão delicada.
Na minha cabeça só havia um tipo de pensamento. Será que vamos recomeçar onde terminámos há dez anos?
Ela sempre foi muito importante para mim. Mesmo depois de me recusar. Nunca consegui deixar de pensar nela. Houve outras mulheres na minha vida, mas nenhuma delas foi tão importante como ela. Mas naquela altura tive que a deixar ir embora. Não pude fazer nada para o evitar.
“Sempre foste o meu melhor amigo … e sei que farias tudo o que estivesse ao teu alcance para me fazer feliz.” confessou ela.
Aquela afirmação deixou-me sem reacção. Sim, é verdade que naquela altura faria tudo o que pudesse para a fazer feliz.
“Lembro-me bem que sempre estavas disponível para me ouvir. Sempre podia contar com o teu ombro e com os teus conselhos. Que me acalmavas quando eu me descontrolava.” continuou ela, enquanto agarrava carinhosamente as minhas mãos.
Aquilo só podia ser um sinal. Um bom sinal.
“Sabes que és muito especial para mim. Sempre o foste. Naquela altura dava tudo para te fazer feliz.” disse-lhe eu com cautela.
“E agora? Ainda serias capaz de dar tudo para me fazer feliz?” perguntou ela.
Fiquei sem saber o que responder. Recordo-me de quando vi pela primeira vez aqueles olhos verdes. Recordo-me da primeira discussão que tivemos. Recordo-me do dia em que lhe declarei o meu amor. Recordo-me da sua reacção. Recordo-me de como a tentei esquecer. Pensei que a tinha esquecido. Passaram-se dez anos e a verdade é que não a consegui esquecer.
“Sim! Ainda sou capaz de dar tudo para te fazer feliz!” disse-lhe eu sem pensar.
“Vamos dar um passeio! Apetece-me andar.” disse ela.
Dirigi-me ao balcão para pagar as bebidas. Ela segui-me e saímos do café. Íamos dar um passeio pela cidade. Os dois, como nos bons velhos tempos. Um dia que se apresentava normal transformou-se, de repente, no dia mais maravilhoso da minha vida. Quando segurava a porta para sairmos, tocou um telemóvel. Alguém vinha atrás de nós. Ela saiu, a jovem que vinha atrás desapareceu na rua e o telemóvel continuava a tocar. Não era o meu. Devia ser o seu telemóvel. Mas ela fazia de conta que não o ouvia. Meti as mãos nos bolsos das calças. Não é que tivesse o hábito de o fazer, mas naquelas circunstâncias era o sítio mais adequado para as esconder. Tentava resistir à tentação de a abraçar ou de lhe agarrar a mão. Eu estava super nervoso. Não o conseguia esconder. Não podia evitar estar nervoso. A mulher da minha vida estava ali ao meu lado. Caminhávamos juntos pela rua. O telemóvel dela tocou outra vez. Meteu a mão na carteira que levava à tiracolo e tirou o telemóvel. Recusou a chamada e voltou a arrumar o telemóvel. Colocou o seu braço à volta da minha cintura e enfiou a sua mão no meu bolso direito das calças. Senti o seu dedo indicador e o polegar apertando-me as carnes do meu traseiro. Era tão bom voltar a sentir aquela sensação. Dei um sorriso.
Sempre me disse que apreciava o meu traseiro. Por isso gostava de ir com a mão naquele sítio. Sem nunca termos sido oficialmente namorados, sempre actuámos como tal. Nunca houve aqueles beijos como nos filmes ou algo mais sério. Nunca houve por vontade sua. Mas andarmos abraçados pela rua, ou de mão dada, era, para nós, uma coisa normal. Apesar de, nunca termos sido, oficialmente, namorados.
“Que foi?” perguntou ela sorrindo também.
“É tão bom voltar a sentir coisas que me faziam sentir feliz” respondi eu.
E sentia-me feliz. Como há muito não me sentia. Estar com ela fazia-me voltar aos tempos em que era verdadeiramente feliz. Não quer dizer que não seja feliz. Mas é uma felicidade diferente. Uma felicidade que me enche o coração.
O telefone tocou outra vez. Mas agora com uma melodia diferente. Ela fez de conta que não ouvia.
“Pode ser alguma coisa importante!” disse-lhe eu.
Perante a minha observação, decidiu-se por atender o telemóvel. Parou ali no meio da rua. Estava tão linda. Ela sempre foi linda. Estava bela. Aquelas calças de ganga adaptavam-se perfeitamente às suas pernas. Aquela camisa branca tornava-a ainda mais bonita. O seu rosto irradiava felicidade.
De repente algo mudou. Afastou-se uns passos. Algo se passou. As suas feições mudaram. Já não estava feliz e sorridente. Estava séria. Afastou-se mais uns passos e trocou umas palavras com quem estava do outro lado da conversa. Eu fiquei ali quieto. Imóvel no meio da corrente humana que percorria aquela rua em várias direcções. Algo se passava. Desligou o telemóvel e guardou-o na carteira. Voltou-se para mim e caminhou na minha direcção. Vinha triste. Quase a chorar.
As suas mãos tocaram as minhas. Os nossos dedos cruzaram-se e ali ficámos imóveis. Olhando um para o outro. Um olhar de despedida. Ela aproximou-se de mim e, colocando-se em bicos dos pés, beijou os meus lábios.
“Tenho que ir. O meu marido já está em casa!” disse-me.
“És feliz?” perguntei-lhe quase num acto de desespero.
Vi lágrimas a brotar dos seus olhos. As nossas mãos soltaram-se e ela foi-se embora sem responder.
Fiquei ali até a ver desaparecer. E à medida que se afastava, veio-me à lembrança a última vez que a vi. Disse-me que no dia a seguir se ia embora da cidade. Passaram-se dez anos. Eu estou casado, tenho um filho, e a vida corre-me de feição. Mas sei perfeitamente que não a esqueci. E sei que, se voltar a ver aquele rosto no meio da rua, vou voltar a recordar todos os bons momentos que passámos juntos. Sei que trocámos números de telemóvel, mas não sei se terei coragem para lhe ligar.
Talvez seja melhor devolver todas as recordações ao baú. Aquele baú chamado memória. Ao lugar onde estiveram todos estes anos. Talvez seja melhor seguir com a minha vida. A menos que aquele olhar doce e terno volte novamente a visitar-me.
Copyright © 2012 Pedro Toscano
No todas las historias romanticas tienen un final feliz:(.Siempre hay un amor en nuestra vida que nos hace sufrir y noches enteras sin dormir,dijo alguien.
ResponderEliminarLeyendo,me imagino todo y me hago la pelicula en mi cabeza.
Besos .Bona
Es cierto. Creo que todos tenemos una historia de amor que, en algun momento de nuestras vidas, nos hizo sofrer.
ResponderEliminarMe alegro mucho que el primer comentário sea de una persona que habla castellano. Significa que mi escritura no és tan complicada de entender.
Gracias!
Hay algunas palabras que resultan mas dificil de traducir pero la escritura se entiende bastante bien.
ResponderEliminarBona
Seu conto me fez pensar que os amores antigos irradiam uma energia brutal.
ResponderEliminarTrazem de bandeja a intensidade de sentimento vivida no passado onde, quase sempre, houve menos amarras do que no presente. O amor antigo acorda as saudades. Saudade de ser livre, saudade do que não viveu, saudade da intensidade, do corpo vibrando e da mente voando como só as aquelas que não sabiam poderiam voar...
Então uma fome de si mesmo acorda e se deleita ao consumir espelhado no olhar do amor antigo, de novo, o você daquele passado idealizado por uma memória seletiva.
Uma expectativa gigante.
Provavelmente volátil, provavelmente uma draga consumidora que sugaria todo o desejo, o frenesim, a ansiedade, os medos, toda a vontade de se sentir vivo outra vez, tudo ao mesmo tempo, num curto episódio truculento interrompido, provavelmente, com a consciência do presente. Afinal a nova oportunidade, que agora você estaria pronto para garantir o sucesso, nunca existiu.
No vazio de uma solidão a dois, quando surge o amor antigo, tem tanto de prazer como de dor.
Ao ler o conto eu voltei a sentir o perigo.
Yasmin ... fiquei sem palavras perante a tua análise do conto.
ResponderEliminarÉ certo que um amor antigo tem tanto de prazer como de perigo. Umas vezes pode ser bastante reconfortante, outras vezes causador de mais dor. Dor por não conseguirmos (re)viver o que já vivemos anteriormente ... dor por termos perdido o que tínhamos ... dor por não querermos recuperar o que já foi nosso um dia.
"O amor é fogo que arde sem se ver" disse Camões um dia ... o amor é dor e prazer...