Antes de entrar, olhei para o relógio. Eram quase as 13:00.
Todos os dias, vinha a esta casa, fazer a limpeza. Excepto fins de semana. Ao princípio custava-me imenso. Arrumar e limpar uma casa onde habitam duas crianças não era tarefa fácil. Agora já não era tão complicado. Aliás … agora fazia-o com gosto!
Tirei a chave do bolso e abri a porta de entrada do prédio. Ao fundo, estava o elevador. Entrei e carreguei para o quarto andar. Segundos depois, o elevador parou no seu destino.
Entrei em casa e acendi a luz. Não havia ninguém. As crianças estavam na escola e os pais não vinham a casa à hora de almoço.
Ao chegar à sala, estava tudo arrumado. Ultimamente, era habitual aquilo acontecer. O pai, depois de ir levar os dois filhos ao colégio, voltava sempre a casa, antes de ir trabalhar. E sempre arrumava os brinquedos que ficavam espalhados pela sala. Aquele homem era um anjo!
Tinha-me afeiçoado a ele. Tinha charme … e algo que fazia com que, sonhasse com ele, todas as noites. Entre nós, tinha nascido, uma amizade muito forte e essa amizade atingiu um patamar mais elevado. Várias vezes me abraçou e me beijou. Com o meu consentimento, claro. Nos meus sonhos, eu ia muito mais longe. Mas tínhamos estabelecido não ultrapassar essa fronteira invisível!
Rapidamente arrumei as poucas coisas que tinham ficado em cima da bancada da cozinha. Logo a seguir fiz as camas e arrumei os quartos. O tempo tinha passado muito depressa. Faltava-me limpar o chão. Mas antes de o fazer, havia algo mais importante. Faltava aquilo que fazia o meu coração bater muito mais forte. Faltava aquilo que realmente alegrava os meus dias.
Todos os dias, ele me deixava um pequeno bilhete escrito à mão. Tenho todos esses bilhetinhos guardados em casa. Guardados numa pequena caixa de chocolates vazia. Uma caixa de chocolates para guardar todos aqueles doces poemas e frases de amor. A caixa que escondo na arrecadação … longe do olhar inquisidor do meu marido.
Tinha estado em todas as divisões da casa. Procurei debaixo de todos os tapetes. Não havia nenhum bilhete. Começava a ficar desesperada. Será que ele se esqueceu? Aquele bilhete dava-me o ânimo que necessitava para conseguir chegar ao final do dia!
Não resisti mais. As lágrimas saíram-me em catadupa. Sentia-me triste. Desolada! Apetecia-me gritar! Gritar bem alto!
Não me contive. Gritei. Um longo e profundo “Não!” saiu de dentro do meu ser ...
- O que é que se passa? - perguntou assustado o marido, levantando-se de um pulo.
- Não se passa nada … tive um pesadelo! - respondeu-lhe ela, - Desculpa!
- Merda para os teus pesadelos! - refilou ele, - Gostava de saber que merda andas a fazer para teres pesadelos!
Ela não lhe respondeu. Era mais fácil ouvir e calar. Não queria discutir. Não tinha vontade de aguentar o seu mau génio. Limpou as lágrimas. Voltou a dormir.
Copyright © 2013 Pedro Toscano
Não queria discutir.Não tinha vontade de aguentar o seu mau génio.
ResponderEliminarLas palabras exactas!!
Ás vezes, a melhor solução é mesmo isso: calar-se e ouvir.
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