1 de janeiro de 2013

#03: Mesa Para Um

Estava muito nervosa. Tão nervosa que não conseguia estar quieta. Nada parecia estar no seu devido sítio. Olhava em todas as direcções tentando ver se alguém se apercebia  que estava nervosa. Aparentemente ninguém se tinha apercebido. E por uma fracção de segundos, consegui acalmar-me outra vez. Há muito tempo que esperava por este momento. Estava super nervosa.

Cheguei quase meia-hora antes. Queria ter tempo para procurar um sítio para estacionar o carro. Fartei-me de dar voltas ao quarteirão. Procurei em todas as ruas das redondezas. E quando me preparava para passar, pela terceira vez, pelo sítio aonde tinha que ir, vejo que saía um carro. Sem pensar e sem olhar para trás, meti marcha-atrás. Só depois me apercebi da estupidez que cometi. Por sorte não vinha ninguém atrás de mim. Por sorte! A ansiedade, por vezes, leva-me a cometer cada asneira. Estacionei o carro. Peguei no telemóvel e li outra vez aquelas duas mensagens que recebi. A primeira recebi-a há três semanas. A segunda recebi-a anteontem. Era a confirmação. O meu coração começou outra vez a bater mais rápido que nunca. Olhei para o relógio. Faltavam vinte minutos. Atirei o telemóvel para dentro da carteira. Tirei o bâton e passei-o pelos lábios. Olhei-me ao espelho. Estava linda. E nervosa.

Entrei. Vi uma mesa livre e sentei-me. Pousei a carteira no chão. Tirei o telemóvel e coloquei-o em silêncio. Arranjei um cantinho na mesa e deixei-o ali. Olhei em redor. A sala estava cheia. Sentada na mesa à minha frente, estava uma senhora de meia-idade. Conheço a sua cara. É-me familiar. Muito familiar. Eu conheço aquela senhora de pele morena e roupa fina.

De repente, a minha preocupação passou a ser outra. Tinha escolhido aquele sítio por não ser frequentado por pessoas conhecidas. Durante algum tempo, estudei todos estes lugares. Não queria que este momento fosse estragado por olhares indiscretos de gente conhecida. Mas aquela mulher misteriosa parecia querer estragar os meus planos. Os nossos olhares cruzaram-se, mas nenhuma pareceu importar-se. Nenhum gesto. Nenhum cumprimento. Apenas me observava com aquele seu olhar sério. E eu fazia o mesmo. Sentia-me incomodada. Continuei a olhar para ela, na esperança que desviasse o seu olhar. Aquele olhar inquisidor era mais forte que eu. Aquela cara era-me familiar. Eu conhecia-a, sem dúvida nenhuma. E ela também devia conhecer-me. Não encontrava outra explicação possível. Mas de onde a conhecia? Não aguentei mais. Virei-lhe a cara e procurei algo que me pudesse tranquilizar. Tinha agora dois problemas. Qual deles o mais grave!

Olhei para o relógio. Estava quase na hora. A hora que iria mudar a minha vida para sempre. Pelo menos era o que eu esperava. Era o que eu queria que fosse. Demorei bastante tempo em tomar esta decisão. Fiz inúmeras pesquisas. Falei com muita gente. Quer dizer … não falei com muita gente … limitei-me a perguntar à minha prima Isabel. E ela conhece muita gente. Sou muito timida, por natureza. E, quando são coisas muito pessoais, bloqueio. Não sou capaz de perguntar. Não se trata de ter medo de perguntar. Não quero que as pessoas adivinhem o que eu quero. Quando são coisas muito importantes para mim. E isto é muito importante para mim. Sempre desejei este encontro. E, quando ele me convidou, senti-me a mulher mais feliz do mundo!

Olhei outra vez para o relógio. Faltava cada vez menos. Senti o meu coração a bater cada vez mais rápido. Voltei a observar aquela velha senhora, sentada mesmo à minha frente. Continuava a observar-me.

De repente algo me chamou à atenção. Desviei o olhar. A porta abriu-se. Entrou um grupo de pessoas. Não era ele. Suspirei de tristeza. Baixei o olhar e dei comigo a brincar com o anel de pano que enrolava o guardanapo.

A minha mesa era para dois. Estava colocada a dois passos da enorme janela. Tinha uma vista privilegiada. Podia ver quase toda a rua. Podia ver o meu carro estacionado uns metros mais abaixo. Do outro lado da rua, a esplanada do café, estava cheia. A rua estava cheia. Afinal de contas, estávamos, em pleno Verão. No centro da mesa, havia uma pequena cesta com pão, um pequeno prato com pequenas tostas e outro com embalagens de manteiga. Apetecia-me comer algo. Tinha um pouco de fome. Mas não queria parecer mal-educada por começar a comer antes da sua chegada.

Tentava não olhar para a rua. Apesar de esperar ansiosamente a sua chegada, o efeito surpresa seria muito mais agradável. Mas gostava da música ambiente.

De repente, sem saber como, ali estava o que tanto esperava. O Luís acabava de entrar pela porta do restaurante. Estava elegante. Encantador. Bonito. Charmoso. Num movimento rápido passei os dedos pelo cabelo. Queria estar bonita. Discretamente, arranjei o vestido de maneira a não ter nada fora do seu devido sítio. Queria estar apresentável.

O Luís é, provavelmente, o homem mais bonito de todos os que conheço em pessoa. E não sou a única a pensar o mesmo. Aonde quer que ele vá, há sempre mulheres que se derretem por ele. Mas creio que ele não leva muito a sério essas coisas da beleza. Prefere ser um homem culto e com muito charme. Ao contrário de outros que, com menos argumentos de beleza, julgam que conseguem ter todas as mulheres que querem. Nunca lhe conheceram uma namorada, embora saia com muitas das suas colegas de faculdade. Adoro imaginar o seu corpo bem definido. Pena que ele hoje venha com mais roupa que o habitual. 

Ele aproximou-se de mim. Todo o meu corpo tremia. Levantei-me e estendi-lhe a mão para o cumprimentar. Meus Deus! Que antiquada! Estendi-lhe a mão quando deveria ter aproximada a cara para ele me dar um beijo. E agora que faço? Olhei para ele. Ele sorria. Que sorriso mais bonito. Tinha visto muitas fotografias dele. Já conhecia o seu sorriso de cor. Mas hoje parecia ainda mais bonito! As suas mão procuraram as minhas. Ao sentir o seu toque, o meu coração acelerou ainda mais. Sentia a minha cara cada vez mais quente. Estava a corar. Que vergonha!

Ficámos ali uns segundos. Os dois. De pé. De mãos dadas.

- Estás encantadora, Marta! - disse-me ele.

O meu beijo! Quero o meu beijo! Beija-me! Pensava eu desesperada. Ele continuava a olhar-me e a sorrir. E não me beijava. E eu não me atrevia a dar o primeiro passo. Ele soltou-me e colocou-se atrás da minha cadeira. Que cavalheiro! Mas preferia um beijo. Sentei-me. Ele voltou ao outro lado da mesa e também se sentou.

Eu parecia uma miúda de doze anos. Uma miúda apaixonada pelo menino bonito da turma. A verdade é que estava mesmo apaixonada pelo menino bonito da turma. A diferença é que tinha mais dez anos. Parece incrível e ao mesmo tempo irreal. Aos vinte e dois anos comporto-me como uma miúda de doze anos. Já tinha tido muitas paixões platónicas. Mas esta paixão era diferente. Esta era real! O Luís era o homem da minha vida. Não havia dúvida!

Durante muitos meses, a Isabel, investigou a sua vida. Sei praticamente tudo acerca dele. Onde mora. O perfume que usa. A sua comida favorita. Aonde passa as férias em família. Que desporto pratica. A sua cor favorita. Os seus melhores amigos. A bebida que toma sempre que sai à noite. As notas que conseguiu nas várias cadeiras. O que quer fazer no futuro. Sei tudo! Vi dezenas de fotografias. Vi o seu álbum de fotografias. Tive o seu álbum de fotografias durante uma semana. Não sei o que teve que fazer para o conseguir mas fiquei radiante quando a Isabel apareceu com ele. Acordava com ele, comia com ele e adormecia com ele a meu lado.

O empregado de mesa chegou. Entregou os cardápios. Pedi uma garrafa de água. Ele pediu a lista de vinhos. Não me surpreendeu pois sei que é um apreciador de vinhos. O empregado voltou com a água para mim. Encheu-me o copo e pousou a garrafa. Foi buscar o vinho para o Luís. Voltou novamente. Traz o vinho. Abre a garrafa. Serve o vinho.

E nós em silêncio. Olhando o cardápio.

Nenhum de nós tinha coragem de iniciar uma conversa. Tantos meses à espera. Tantos sonhos. Tantas conversas imaginárias. E agora não conseguia pensar em nada para começar uma conversa. Segundos depois, volta o empregado. Fazemos os pedidos.

Continua o silêncio.

Levo o copo à boca e bebo um gole de água. Luís prepara uma pequena tosta com patê. Agora não me apetece comer nada. Tenho um nó no estômago. E outro na garganta. Tenho vontade de falar. Falar com ele. Dizer-lhe que é o meu príncipe encantado. O homem dos meus sonhos. Que temos muitas coisas em comum. Todo aquele silêncio torna-se desconfortável. Porque motivo não começa ele uma conversa? Os minutos passam. O empregado volta com os pedidos. Acho que a única coisa que vou conseguir comer é a sopa. Porque não é preciso mastigar.

Olho em redor. A velhota da mesa em frente já não está. Graças a Deus! Não me dei conta que se tinha ido embora. Melhor assim! Todas as mesas estão ocupadas. Ouço o barulho de garfos e facas a cortar a comida. Copos que se enchem. Gente que conversa. Ouço gargalhadas.

E nós em silêncio.

Agora já tenho vontade de comer. Mas não consigo tocar na comida. Apetece-me falar. Falar muito. Apetece-me ouvir a sua voz. Porque motivo não começa ele a conversar? Será que não sabe que eu sou muito tímida? O Luís levou o copo de vinho à boca. Pousou-o mesmo ao lado do seu prato. Agarrou no guardanapo e colocou-o sobre as suas pernas.

O Luís é uma pessoa bastante informal. Adepto da etiqueta. Sabe adequar as conversas consoante o local e as pessoas com quem está. Sabe falar em público. Vem de uma família com dinheiro e educação e isso nota-se. É um verdadeiro cavalheiro.

Ele olhou para mim! Preparava-se para começar a comer a sua sopa. Pousou a colher e sorriu.

- Estás bem, Marta? - perguntou ele.

- Sim … estou bem! - respondi acenado afirmativamente com a cabeça. E sorri.

Estava feliz. Mas também estava muito nervosa.

- Já pensaste aonde vais passar as férias? - perguntei-lhe. Finalmente tinha conseguido articular algumas palavras. Tinha conseguido vencer a minha timidez.

- Ainda não! Tenho duas opções mas, para te ser sincero, nenhuma delas me agrada! - respondeu Luís.

- Este ano vou para o Algarve com os meus pais. As minhas amigas vão passar o Verão a trabalhar. - disse-lhe desconsolada.

Ele levou o copo à boca e bebeu um gole de vinho. Limpou a boca e pousou novamente o guardanapo sobre as pernas.

- Os meus pais querem ir à Grécia, na última quinzena de Agosto. E os meus amigos do clube querem ir a Marrocos. - acrescentou Luís

- Que emocionante. Quem me dera ter dinheiro para ir a pelo menos um desses sítios! - respondi-lhe eu entre dois suspiros.

- Sabes como seriam as férias ideais para mim? - perguntou-me.

Mil e uma ideias apareceram, de repente, na minha cabeça. E, em todas elas, aparecia eu. As minhas férias perfeitas seriam contigo, pensei eu com os meus botões. Podiam ser em qualquer parte do mundo. Mas tinha que ser contigo.

- Prefiro não arriscar. - respondi sorrindo. E essa era a verdade. O Luís era pessoa de gostos bastante refinados e de ideias fora do normal. É bastante difícil dizer o que vai na cabeça de uma pessoa como ele. Tendo muito dinheiro tem acesso a coisas com as quais eu só posso sonhar. - Talvez ir de férias ao Nepal? - atirei eu depois de pensar numa coisa fora do normal.

Ele pousou novamente a colher. Pensou durante uns momentos e sorriu. E deu uma pequena gargalhada.

- Sabes? … até pode ser uma excelente ideia! Nunca me tinha passado pela cabeça um destino como esse! - respondeu parecendo agradado com a ideia. - Para mim, as férias perfeitas eram poder dar a volta ao mundo em barco. Mas os meus pais acham que ainda não estou preparado. O meu pai ainda não confia em mim ao ponto de me deixar levar o barco sozinho. - lamentou-se ele

O barco! Não me lembrava que eles tinham um barco. A “Sereia Azul” que estava ancorado na marina. Já o tinha visto ao longe. E a Isabel já me tinha falado dele. O ano passado, quando celebrou o seu aniversário, o Luís levou a turma a dar um passeio pelo estuário do rio. Eu não pude ir porque estava de cama.

- Deve ser uma viagem maravilhosa! Conhecer sítios novos. Ver o pôr-do-sol no meio do mar … - disse eu

- E o nascer do sol também! - interrompeu ele sorrindo. É uma coisa espectacular. É como estar no miradouro … mas rodeado por água! Sentir o vento a balançar o barco …

- E a beber um bom champanhe em boa companhia! - acrescentei eu. Apetecia-me participar naquela viagem de sonho.

- Vejo que temos algumas coisas em comum! - disse sorrindo.

Corei ao ouvir aquilo! Por mim, aquele jantar podia acabar já ali e podíamos ir a correr para o barco. Podíamos ir ver o nascer do sol.

- Talvez seja melhor começarmos a comer … antes que arrefeça. disse ele.

Sim, talvez fosse melhor começar a comer. Necessitava de fazer algo para disfarçar. De certeza que ele reparou que eu estava corada. Pensar em nós os dois, no barco, a beber champanhe e a assistir ao pôr-do-sol, fez-me sentir uns calores e corar. De certeza absoluta que estava corada. E, tenho vergonha, quando fico corada. É quase como estar nua. Bebi quase um copo de água e consegui acalmar todas aquelas emoções fortes que invadiram o meu corpo.

A sopa tinha bom aspecto. Deixei a colher brincar com a sopa. Estava a sonhar acordada. Sentia-me muito feliz. Estava com o homem da minha vida. Num lugar romântico. Só faltava ser um jantar a dois à luz de velas. O Luís consultava o seu telemóvel. Alguém lhe mandou uma mensagem. Levei a colher à boca enquanto ele lia a mensagem. Estava tão feliz que não me importava que estivesse a consultar o telemóvel. Coisa que em outra ocasião me deixaria muito chateada. Mas hoje não! Hoje sou capaz de superar qualquer coisa menos agradável. Hoje estou com o Luís. O homem da minha vida!

- Os meus amigos querem sair no domingo para irmos pescar! São porreiros mas às vezes um pouco chatos. Pedi-lhes para não me ligarem esta noite! - disse-me com um súbito ar entristecido.

- Pelo menos ainda te ligam! As minhas amigas só se lembram de mim quando precisam de alguma coisa. Já estou habituada! Ao princípio fazia-me confusão mas agora já não ligo. Habituei-me a andar sozinha e a estudar sozinha. - disse-lhe eu com um ar conformista.

- Agora que falas nisso … não me lembro de te ter visto, em nenhuma festa da faculdade, este ano. Mas as tuas amigas estiveram em todas! - disse soltando uma gargalhada.

- Não sou muito dessas paródias. Prefiro aproveitar o tempo em coisas mais úteis!

- E isso nota-se no final do curso. Tivestes as melhores notas da turma!

Ele reparou nas minhas notas!

- Tens inveja? - perguntei-lhe.

- De modo algum! Não me esforço o suficiente para atingir esse objectivo. Reconheço que és melhor que eu! - respondeu enquanto lia outra mensagem acabada de chegar.

Agora sim, começava a preocupar-me com as mensagens que ele recebia. Não quero que esteja distraído com os  seus amigos. Hoje quero-o só para mim.

Decidi começar a comer a sopa, enquanto ele respondia à mensagem que tinha recebido. De repente pousou o telemóvel. Agarrou no guardanapo e levantou-se.

- Peço-te desculpa mas tenho que fazer uma chamada. Venho já. Assim já podemos estar mais descansados o resto da noite. - disse ele levantando-se.

Eu não acreditava no que me estava a acontecer. Precisamente hoje. A noite mais importante da minha vida. A noite em que venho jantar com o homem da minha vida! A noite tinha começado mal ao ver aquela senhora na mesa ao lado. Depois as mensagens dos amigos. E agora levantar-se e ir para a rua falar com algum dos seus amigos. Decididamente não estava a correr bem.

Pela janela via-o falando ao telemóvel. Levantou a mão em direcção à esplanada. Do outro lado da rua, alguém também levantou a mão. Ele desligou o telemóvel e atravessou a rua. Eu ia comendo a sopa. Estava quase fria. E eu que gostava tanto de uma sopa de legumes bem quentinha.

Olho outra vez para a rua. Já lá vem. Vejo-o entrar no restaurante.

- Desculpa-me! É um dos meus amigos. Tinha visto o meu carro e queria saber onde estava. Tive que lhe dizer que hoje não podia sair com eles. - disse ele.

- Se quiseres podemos ir ter com eles depois de jantarmos! - disse eu na esperança de que a sua resposta fosse negativa.

- Não! Hoje não. Hoje apetece-me passar uma noite normal em boa companhia … na tua companhia. - disse sorrindo. - Já pensaste aonde queres ir depois do jantar? - perguntou ele.

A sua resposta indicava que, afinal de todos os percalços, a noite ainda não estava perdida. E se estivesse perdida, sempre tinha a Isabel para me fazer companhia.

- Esperava que fosses tu a escolher. Confio no teu bom gosto. - disse-lhe eu. - Mas se calhar é melhor pedir o segundo prato. A tua sopa já deve estar fria.

Luís olhou em redor e fez um sinal ao empregado de mesa. Quando este chegou, pediu-lhe outra sopa.

- Pedimos o segundo prato para ti? - perguntou-me ele.

- Posso esperar. Não te preocupes! - respondi eu.

O empregado de mesa voltou-se e dirigiu-se à cozinha. Luís bebeu mais um gole de vinho e segundos depois voltou o empregado com a sua sopa. Voltou a abrir o guardanapo e pousou-o nas pernas. Observou a sopa e inspirou brevemente. Cheirava muito bem.

- Está excelente! - disse-lhe eu.

- Pelo menos cheira muito bem! - disse ele enquanto levava a colher ao prato. Mexeu a sopa durante breves instantes e levou a colher à boca.

De repente houve algo que me chamou à atenção. Como estava entretida a barrar uma mini tosta com manteiga, não reparei em quem estava a fazer aquilo. Foi uma coisa que sempre me incomodou. Não aguentava quando faziam aquilo perto de mim.

Levantei o olhar. O Luís estava a saborear a sopa. Olhei para o lado e todos estavam a comer. Na mesa ao lado estava um miúdo. Talvez tenha sido ele. Detesto pessoas sem modos. Detesto pessoas que não se sabem comportar à mesa. Mesmo que sejam miúdos.

Peguei noutra tosta e preparava-me para a barrar. Outra vez o mesmo ruído. Levantei o olhar. Não podia acreditar!

Na minha família havia uma pessoa que fazia o mesmo. Infelizmente, por uma questão de respeito, nunca me levantei da mesa. Mas desta vez vou mesmo fazer isso. Não aguento estar à mesa com uma pessoa assim. Dá-me voltas ao estômago. E revela uma tremenda falta de respeito. E falta de modos!

- Agora sou eu que te peço desculpa, Luís! Mas não posso continuar este jantar contigo. Desculpa-me, mas não posso! - disse-lhe eu enquanto guardava o meu telemóvel na carteira e saía porta fora.

Sei que não agi da maneira mais correcta. Não tinha outra alternativa. Não aguentava mais. Corri para o carro. Abri a porta e atirei-me lá para dentro. Tinha vontade de chorar … e chorei.

Agarrei no telemóvel e liguei para a Isabel. Não atendeu. Liguei outra vez.

- Então priminha, como correu o jantar? - perguntou Isabel do outro lado da linha. - O que é que aconteceu para estares a chorar? Estás bem? Queres que eu vá ter contigo?

- O jantar já acabou. Acabou na sopa! - disse-lhe entre lágrimas e soluços. - O Luís chupa a sopa e sabes que isso me mete nojo!

- Tal como fazia a avó! - respondeu ela.

Copyright © 2012 Pedro Toscano

1 comentário:

  1. No deberia de molestar tanto a marta el gesto de luis si de verdad esta enamorada de el pero bueno...nadie es perfecto!
    Que pena que un hombre tan perfecto come l sopa haciendo ruido :-(a mi tambien m molesta eso pero no tanto como para dejar escapar el "hombre de mi vida".
    Bona

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