Mário estava no seu atelier de escultura. Tinha terminado aquele busto à dois dias. Depois disso não tinha feito mais nada. Absolutamente nada! Limitava-se a estar sentado no seu cadeirão de repouso. Fumava cigarro atrás de cigarro. Bebia cerveja, uma após outra. E observava. Procurava alguma imperfeição. Já tinha observado o busto centenas de vezes e não encontrava nenhuma imperfeição. Tudo estava exactamente igual à pessoa que quis retratar.
Sem dúvida … estava igual à pessoa. O cabelo. Os lábios. As orelhas e o pormenor dos brincos. A pequena cicatriz no lado esquerdo do pescoço. A maçã de Adão. Até o olhar esbugalhado. Estava lá tudo. Ao mais mínimo detalhe.
Quando se cansou de não encontrar defeitos, apagou o cigarro. Bebeu a cerveja de um só gole. Levantou-se e agarrou no busto. Levou-o até à bancada de madeira encostada à parede de fundo do atelier. Depois colocou um disco de vinil no gira-discos. O atelier encheu-se com os sons fortes e vibrantes de “Oh Fortuna” da ópera 'Carmina Burana', a sua música preferida para soltar toda a loucura que existia dentro de si.
Diante da sua obra-prima, Mário, comportava-se como um verdadeiro maestro louco, movendo os braços como se estivesse a dirigir a sua própria orquestra.
Depois pegou na maceta com que esculpia a pedra e começou a destruir o busto de barro. Detestava-o. Odiava aquela pessoa. Odiava tudo o que aquela pessoa fazia. Odiava tudo o que aquela pessoa representava. Era incapaz de viver com ela.
Podia ser que, destruindo aquela representação, conseguisse aliviar a sua dor. Tinha chegado a um ponto em que já não conseguia viver consigo mesmo. Definitivamente …. a sua vida era uma merda!
Copyright © 2014 Pedro Toscano
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