17 de setembro de 2016

#125: O Castigo

Não sei qual dos dois está mais gelado, se o meu cú ou o banco de pedra onde estou sentado. 

Perdi a conta ao tempo que levo aqui sentado. Uma hora? Talvez duas, não sei. Sinceramente não sei há quanto tempo saí de casa. Muito menos recordo o caminho que fiz até chegar a este recanto. Saí de casa sem pensar. Apenas tinha que me afastar. E agora aqui estou, em mangas de camisa, olhando para meio maço de tabaco que tenho na mão e um frio me gela até as partes mais sensíveis do corpo. A alma…. essa há muito que não conhece o calor.

Pergunto-me o que estou aqui a fazer. Respondo que não sei. Perfeita estupidez!

Estou aqui porque tu estás em todo o lado. Aonde vou, procuro-te sem querer. Deveria estar em casa, contigo a meu lado, sentados no nosso sofá. A ouvir as nossas músicas preferidas, a ver os nossos filmes prediletos. Aonde te encontro, não te quero ver. 

O tempo passa muito devagar...

Muito devagar....

E quando te dás conta...

...sentes-te um idiota, sentado num banco de pedra fria, numa tarde de outono, sem pensar merda nenhuma de jeito. Idiota!

Apetece-me bater, partir, escangalhar, rebentar... nada de útil. É disto que tenho medo... não sentir nada de jeito. Não ter nenhum sentimento coerente. 

Quase seis anos que se foram. Mas pelo menos desfrutei. E agora deveria estar a desfrutar ainda mais do que me rodeia. Mas nem a paisagem me anima. E aqui estou eu, sentado num banco de jardim, lamentando-me da sorte que tenho. Nem chorar me apetece...

Sentado como se não tivesse nada que fazer. Sentado como se descansasse depois de muito ter feito. Sentado como se... fosse um idiota!

Estar aqui sentado, quietinho, pensando em como acalmar o furacão que deveria ter o meu corpo em ebulição. Ou se calhar, na esperança que a leve brisa me acalme.

Sinto algo muito leve... suave. Uma lágrima escapa-se-me pela cara. Fungo um pouco. Levo a mão à cara. Limpo o nariz e de caminho apago todos os vestígios desse resquício de sentimento que senti por ti. Maldita constipação. 

Estúpido! Como pude ter sido tão estúpido! 

Como pude deixar-me levar? Agora vejo que a minha felicidade era mentira. Antes era feliz, o depois foi infelicidade, cegueira. Tudo te dava, sem nada receber. O teu sorriso era a minha maior recompensa. 

Tinha pedido a Deus que fizesse magia. Estava cansado de amores estéreis. E ele colocou-te na minha vida. E eu esqueci-me de mim. E agora quero esquecer-me d'Ele...

O teu coração era de pedra. Tarde demais me dei conta. Nunca soubeste amar. Nunca quiseste amar. Apenas desejavas. Apenas querias. Apenas querias possuir. Apenas...

Tarde demais me apercebi que as discussões eram sempre pelo mesmo motivo. Tinhas descoberto que se me acabava o dinheiro que tu gastavas sem parar.

Finalmente decido levantar-me. Por fora, estou gelado. E triste. Mas alegre por dentro... outro já estará no lugar que eu antes ocupei!

Acabou-se o castigo...

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