O João já tinha pensado, várias vezes, mudar de hobbie.
Normalmente, uma pessoa, pensa em mudar de trabalho. Mas o João está contente com o seu actual trabalho. E tem pena de não lhe poder dedicar mais tempo. Não o pode fazer porque o seu hobbie lhe rouba muito tempo.
Um dia também vai deixar aquele trabalho. Talvez daqui a uns dez anos. Nada o prende. Não tem mulher, nem filhos, nem cão, nem hipoteca para pagar. Sente-se um homem livre. Pode ir para onde quiser. E para um homem livre, aquela é a melhor profissão!
Naquele trabalho conseguia juntar o útil ao agradável. Não tem preocupações. Nem chatices. Ele faz o seu horário. É um profissional independente!
O que verdadeiramente o chateia é o maldito hobbie. Esse sim que lhe dá dores de cabeça. Bastantes. Ainda por cima tem que aturar um chefe tirano que não lhe dá descanso. Aquele gajo é pior que uma mulher ciumenta. Daquelas que desconfia que o marido lhe anda a pôr os cornos. E que anda a ser trocada por uma gaja ainda mais nova e mais louca na cama. Daquelas que controla tudo o que o marido faz. Ao seu chefe só lhe falta ir atrás dele quando vai à casa de banho. Mas infelizmente não pode abandonar aquele hobbie. O hobbie que lhe anda a dar cabo do corpo. A minar-lhe o espírito. A roubar-lhe energia. Maldito hobbie!
No trabalho, os clientes exigem-lhe cada vez mais tempo. O hobbie exige-lhe bastante tempo e dispêndio de energia. Necessita férias. Impossível. As circunstâncias não o permitem!
Já não tem tempo para estar com os amigos. Os poucos que ainda tem. Os que já não estão na lista já sucumbiram aos encantos das relações para toda a vida. Deixaram-se agarrar. Estão casados!
João detesta a ideia. Pensar em casamento provoca-lhe uma sensação de mal-estar. Mal-estar físico e psicológico. E quando alguém traz o assunto à baila, ele arranja maneira de mudar o rumo da conversa. Prefere falar de futebol. Embora não entenda que gozo dá a uma pessoa, durante hora e meia, estar à frente da televisão a ver vinte e dois gajos a darem pontapés numa bola.
Naquele dia, ao sair da empresa, no final do expediente, deu-se conta que o seu telemóvel estava a tocar dentro da mochila. Procurou um cantinho onde pudesse falar em condições. Era hora de ponta e, com o barulho dos carros em movimento, era impossível ter uma conversa em condições.
Tirou a mochila. Meteu a mão e agarrou o seu telemóvel. Uma grande máquina. Não conhecia o número. Recuperou a chamada perdida e esperou que alguém respondesse. Atenderam. Era voz de mulher. Durante uns segundos ouviu o que ela tinha para dizer. Depois pensou durante uns segundos. Olhou para o relógio.
“Muito bem! Dentro de meia hora estou aí no hotel! Tem preferência por alguma fantasia?”, perguntou ele antes de terminar a ligação.
O João soltou um sorriso enorme. Adorava o seu trabalho.
Copyright © 2013 Pedro Toscano
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