Nas minhas deslocações pela cidade, adoro utilizar o metro. É mais rápido e tem o seu quê de interessante viajar abaixo da superfície da terra.
Eu tinha entrado na estação anterior. Sairia duas estações mais à frente. Na estação seguinte, entrou bastante gente na minha carruagem. Sou uma pessoa bastante observadora e, devido à minha profissão, adoro analisar determinados comportamentos das pessoas. Por isso, uma vez mais, lá estava eu a ver toda aquela gente que entrava. E os que saíam.
Foi então quando reparei num rosto. Um rosto feminino. Uma beleza daquelas que se vê pouca.
Vi como procurava um lugar para se sentar. Resultou ser um busca infrutífera pois já estavam todos ocupados. Ficou de pé encostada a um varão. Balanceando à medida que o metro avançava pelos carris.
Fiquei a olhar para ela. Ela apenas olhava ao seu redor. Talvez tentando adivinhar qual daquelas pessoas se iam levantar na próxima estação. Talvez fosse isso. Ou talvez só procurasse distrair o olhar.
Foi então que os nossos olhares se cruzaram. E ambos desviámos o olhar para outro lado.
Mas aquele encontro de olhares tinha sido forte. Muito forte. E de vez em quando eu procurava-a com o olhar. Tentava disfarçar. Tentava dissimular a minha intenção. Mas quando olhava para ela, ela também olhava para mim. Eu não podia evitar olhar. Ela era bonita. Muito mais que bonita. Ela era bela.
Assim estivemos neste jogo de olhares. Tipo gato e rato. Eu não podia evitar. E quando os nossos olhares se cruzavam, como que ficávamos hipnotizados um pelo outro. Nenhum queria ser apanhado a olhar para o outro, mas quando isso acontecia nenhum queria desviar o olhar. E sempre acabávamos por desviar simultaneamente o olhar.
Com tanta gente na cidade, o destino quis que aquela bela mulher entrasse na minha carruagem do metro. O destino tinha-nos colocado no mesmo lugar e à mesma hora.
Sentia-me enfeitiçado por aquele olhar. Eu sabia que nada iria acontecer. Mas não podia evitar. Era algo mais forte que eu. Era algo incontrolável. Parecia um encontro saído da escrita de um conhecido escritor. Ou um momento inesquecível daqueles que enchem os filmes românticos que eu adoro ver. Eu sentia-me dentro de um filme.
Na paragem seguinte, saiu muita gente. E entraram poucos. Deu para ver que já havia bancos vazios. Mas ela permaneceu de pé. E estava de mão dada a uma criança. Uma menina de cabelos louros. Aparentava ter uns cinco ou seis anos.
O metro pôs-se de novo em movimento. E ela voltou a balançar à medida que o metro ganhava mais velocidade. Vi como ela me observava. E reparei como a pequena lhe pedia para se sentarem. Mas ela não quis. Manteve-se de pé. Olhando-me.
Olhei pela janela. Vi a escuridão do túnel. E ao longe já se vislumbrava a próxima estação. Eu saía na próxima estação. Coloquei a minha mochila ao ombro. Olhei para ela. Ela continuava a olhar para mim. E sorriu. Olhei em meu redor para ver se alguém lhe devolvia o sorriso. Podia ser coincidência. Mas era para mim. Ela, ao reparar na minha reacção, voltou a sorrir. Sorriu de uma maneira que só os anjos sabem sorrir. Um sorriso doce.
O metro parou. Levantei-me e apertei o fecho do casaco. Era a minha paragem. Coloquei as mãos nos bolsos do casaco. À medida que avançava em direcção à porta, olhava para ela. Não podia demorar muito tempo sair mas apetecia-me demorar uma hora. Não queria abandonar aquele olhar doce.
Quando passava por ela, num movimento rápido, coloquei-lhe a mão no seu rosto. Acariciei-a rapidamente mas com ternura.
Eu sabia que talvez nunca mais a voltasse a ver. Tinha que aproveitar aquele momento. Queria beijá-la. Mas algo me impedia de fazê-lo. Ela não ofereceu nenhum tipo de resistência.
Dei dois passos e saí do metro. Fiquei ali a olhar para ela. Agora estava encostada à porta. Reparei como limpava a cara. Estaria a chorar? É provável. Ninguém limpa a cara daquela maneira sem ter estado a chorar.
Vi as portas fecharem-se...
Vi como me fazia um sinal. Tentava dizer-me algo. Talvez algo relacionado com a pequena que estava a seu lado. Mas não percebi nada.
Vi como o metro começou a andar...
Vi como ele desapareceu no túnel escuro...
Vi como Marina se escapou da minha vida. Uma vez mais ...
Copyright © 2013 Pedro Toscano
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