Eu estava à espera de encontrar dificuldades para entrar. Mas foi precisamente o contrário. Bastou mostrar o meu cartão de estudante aos dois seguranças. Eles consultaram uma lista de autorizações e deixaram-me entrar. O responsável do jornal da escola tinha, com bastante antecedência, pedido a autorização. Ainda antes de ele chegar à cidade.
O novo ídolo das jovens tinha agendado um espectáculo na cidade. À volta da sala de espectáculos só se viam adolescentes. De todas as idades. E todas como o mesmo objectivo. Ver aquele belo e jovem prodígio musical. Ele aparecia em todas as capas das revistas. Todas as televisões nacionais mostravam reportagens dos seus espectáculos. Milhares de jovens adolescentes seguiam-no. Aos seus dezoito anos, era o cantor que mais vendia. E, para premiar o meu excelente desempenho ao longo do ano lectivo, fui a escolhida para realizar uma entrevista.
Depois de passar pelos seguranças, segui as indicações e ao chegar ao final daquele enorme corredor estava na zona dos camarins. Eu estava nervosa. Bastante nervosa. Era uma enorme responsabilidade. Ele era um ídolo. Eu apenas uma aspirante a jornalista. E também era seu fã.
Antes de bater à porta, abri a minha mochila e confirmei que tinha tudo o que necessitava. Tinha o pequeno gravador, a máquina fotográfica e material de escrita. Respirei fundo. Expirei. Inspirei uma vez mais. E expirei. Estava pronta!
Bati à porta. Três pancadas ligeiras. Não queria fazer demasiado barulho. Havia gente lá dentro. Distinguiam-se perfeitamente três vozes diferentes. Não custou muito ver que se tratavam de duas vozes femininas. Bati novamente. Desta vez, com um pouco mais de força. As vozes femininas não paravam de dar gritinhos. Havia muita diversão.
Por momentos pensei em ir-me embora. Mas desisti desse pensamento. Tinha que cumprir aquela tarefa. Quando me preparava para bater novamente, a porta abriu-se. Lentamente. Alguém espreitou. Era uma das mulheres.
“É a jornalista!”, disse a mulher que espreitou pela porta entreaberta.
“Deixa-a entrar!”, disse a voz masculina.
A porta abriu-se um pouco mais e entrei. Senti medo. Pressenti algo estranho naquele camarim. Os gritinhos voltaram a ecoar. Fechei a porta. Ao voltar-me vi-os. Estavam os três, sentados num pequeno sofá. Havia garrafas de cerveja vazias espalhadas pelo camarim. Ele estava meio vestido. E elas tinham roupa a menos. Uma delas estava completamente nua, recostada no sofá. A outra mostrava os seus enormes seios. Estavam os três completamente bêbados. Era fácil ver o estado em que se encontravam.
Eu fiquei ali. De pé. Imóvel. Assustada. E desiludida. Afinal de contas, o ídolo de todas as adolescentes não passava de um adolescente bêbado e irresponsável. Eu não me conseguia mover. Estava paralisada perante tal degradante espectáculo.
“Queres beber alguma coisa?”, perguntou ele levantando-se do sofá com uma garrafa de cerveja. Por pouco não se estatelou no chão.
Eu não respondi. Estava horrorizada.
“Se quiseres, tenho uma coisa para snifar!”, disse ele soltando uma sonora gargalhada. Os risinhos histéricos das suas acompanhantes não se fizeram esperar.
Ele fez um esforço e conseguiu chegar até mim. Eu estava apenas a cinco ou seis passos do sofá. Parou e olhou-me nos olhos.
“Não me fazes nenhuma pergunta?”, perguntou ele entre gargalhadas e risinhos histéricos.
Ele tresandava. Estava completamente bêbado. Mal conseguia articular uma frase com quatro ou cinco palavras. Eu estava escandalizada. E ele não parava de rir. E elas não paravam com aqueles malditos risinhos histéricos.
Sentia-me perdida. Não sabia o que fazer. E as coisas pioraram quando ele me tentou agarrar pelo braço. Instintivamente, dei um passo atrás. E sem saber como, desferi-lhe um valente estalo na cara. Se antes ele não se aguentava de pé, agora jazia esticado no chão. De certeza que não foi pela força com que lhe bati.
Antes que ele reagisse, abri a mochila e agarrei a máquina fotográfica. Rapidamente fiz algumas fotos e sai porta fora. Queria desaparecer dali o mais depressa possível. Corri. Corri o mais depressa possível. Ao sair pela porta da sala de espectáculos, deixei os seguranças surpreendidos. E deixei para trás a pouca inocência que ainda tinha.
Naquele dia deixei de acreditar em estrelas da música.
Afinal de contas, eles não são diferentes das pessoas normais...
Copyright © 2013 Pedro Toscano
oo0oo
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