25 de março de 2013

#53: A Revelação

Necessitava urgentemente de resolver, de uma vez por todas, aquele velho problema. Tentei pelos meus parcos meios e recorrendo aos meus conhecimentos mas o único que consegui foi complicar ainda mais a situação. Que, já de si, era complicada. Um colega de trabalho indicou-me uma advogada. Disse-me que era uma das melhores naquela área.

 Percorri lentamente a avenida. Caminhando. O meu colega tinha-me dito que era difícil dar com o escritório dela. Não podia perder tempo à procura de estacionamento. Nem distrair-me ao volante.

Enquanto procurava o número 25, meditava sobre o nome da advogada. Eu conhecia aquele nome. Na Universidade, eu tinha conhecido uma jovem com aquele nome. Ela estudava Direito e tínhamos amigos em comum. Quando acabámos os cursos cada um seguiu o seu destino. Ela ficou em Lisboa. Eu fui para Inglaterra. Estive lá sete anos.  Mas talvez fosse coincidência. Centrei-me em recordar todos os detalhes do meu problema.

Quando finalmente dei com o número 25 suspirei de alívio. Olhei novamente para o cartão de visita. Era no terceiro andar. Toquei à campainha e segundos depois alguém lá em cima abriu a porta. Apesar de ser um edifício antigo, tinha bom aspecto por dentro. Entrei e dirigi-me ao elevador. Carreguei no terceiro e o elevador começou a subir.

Toquei à campainha. Uma jovem veio abrir a porta. Uma estagiária quase de certeza absoluta

“Queria falar com a doutora Filomena Menezes, por favor.”, disse-lhe ao entrar. “Não tenho hora marcada mas creio que a doutora já está avisada.”, acrescentei.

“Como se chama?”, perguntou ela.

“Paulo. Paulo Ferraz.”, respondi eu enquanto ela fechava a porta atrás de mim.

“Eu vou avisar a doutora, sr. Ferraz.”, disse-me ela indicando-me a sala de espera.

Era uma sala pequena. Uma pequena carpete em tons verdes ocupava a parte central. Nas paredes havia vários quadros. De vários tamanhos. Todos eles apresentavam pinturas e fotografias de várias zonas da cidade. Decidi sentar-me.

“A doutora vem já, sr. Ferraz.”, veio avisar-me.

Agarrei numa revista para matar o tempo. Tinha escolhido uma de moda. Era só para fazer tempo.

Uns minutos depois, pelo canto do olho, reparei que alguém entrou na sala de espera. Levantei a cabeça. Reconheci-a imediatamente. Pousei a revista e levantei-me. Ao ver-me, ela ficou imóvel. Depois sorriu.

“Paulo! Como estás?”, perguntou ela efusivamente.

Eu correspondi com um enorme sorriso. De alegria por rever uma velha amizade. Ela deu-me dois beijos. Tinha posto de lado as formalidades. Afinal de contas éramos velhos amigos. Depois afastou-se uns centímetros. Olhou-me de alto a baixo.

“Continuas na mesma, Paulo!”, disse-me ela. “Fico muito contente por te ver. Há quanto tempo voltaste de Londres?”, perguntou ela.

“Há ano e meio, mais ou menos!”, respondi-lhe eu.

Filomena fez-me sinal para não continuar a conversa. Deu meia volta e desapareceu no corredor.

“Joana. Cancele-me o cliente das seis. Diga-lhe que me surgiu um problema e combine outra dia.”, disse ela à sua secretária.

Quando voltou, vinha a vestir um casaco e trazia uma carteira na mão.

“Isto merece um café!”, disse ela agarrando-me delicadamente pelo braço.

Ela abriu a porta e saímos. Descemos pelo elevador e fomos até à pastelaria que havia um pouco mais à frente. Como estava bom tempo, optámos por uma mesa na esplanada. Eu pedi um café. Ela pediu um café e um pastel de nata.

Entre goles de café e mordiscos no pastel de nata, fomos falando do meu problema. Quando me preparava para escrever num guardanapo os documentos que eu necessitava, ela pegou-me na mão.

“Quando voltar ao escritório, a minha secretária trata disso.”, disse-me ela. Depois recostou-se na cadeira e olhou-me. Um olhar profundo.

Senti-me incomodado com aquele olhar.

“Porque te foste embora sem avisar?”, perguntou ela.

Eu sabia que, mais tarde ou mais cedo, aquele assunto voltaria à superfície. Até então tinha conseguido esconde-lo no fundo do baú das memórias. Agora não tinha outra opção. Tinha que o trazer à superfície.

“Eu sei que não procedi da melhor maneira … mas não havia outra opção!”, confessei eu. “Se ficasse não tinha conseguido entrar em Cambridge”, acrescentei.

“E alguma vez pensaste no sofrimento que causaste?”, perguntou ela em tom inquisidor.

Ela tinha razão. Toda a razão do mundo. Eu tinha abandonado Lisboa quase sem avisar. Procedi mal. Ao longo dos anos, reconheci-o várias vezes em frente ao espelho. Olhando para a minha própria cara. Mas aquele curso era muito importante. Mais importante para o meu pai do que para mim. Era uma oportunidade que não poderia desperdiçar. Se fosse hoje, talvez não fosse. Mesmo que causasse um enorme desgosto aos meus pais.

“Eu sei que causei muito sofrimento, Filomena.”, disse-lhe eu quase a meia voz. “Mas também sabes como eram os meus pais. Eu estava entre a espada e a parede. Não podia fazer nada.”

“Podias! Podias ter feito mais! Muito mais!”, recriminou-me ela. “Podias ter avisado! Podias ter mantido contacto com as pessoas que te queriam … uma em especial!”, continuou ela.

Eu evitava olhá-la nos olhos. Estava demasiado envergonhado. Aquele fantasma que me tinha perseguido nos últimos oito anos e meio, voltou a aparecer. A Filomena tinha toda a razão. Nada do que eu pudesse argumentar melhoraria a minha posição. Tinha sido um canalha. Tinha abandonado a pessoa que me amava. Aquela pessoa que se fartou de fazer sacrifícios por mim. Fui um canalha. E não merecia perdão.

Ela olhou para o relógio. Já tinha passado mais de uma hora. Ela chamou o empregado e pediu a conta. Quando este chegou à mesa, coloquei uma nota de cinquenta euros para pagar a despesa. Ela não queria. Tive que insistir. Ela pediu a factura e deu-lhe os seus dados.

Subimos outra vez a rua até à porta do edifício onde Filomena tinha o escritório. Ela colocou a sua mão no meu ombro.

“Desculpa a minha atitude parva. Eu sei que não tinhas por onde escolher!”, disse ela enquanto me acariciava a face e o pescoço. “Já foste perdoado há muito tempo. Não te castigues mais.”, acrescentou.

Quis falar mas a voz falhou-me. Ela percebeu o estado em que estava. Percebeu que o arrependimento tinha comido todo o meu ser. Abriu a carteira. Retirou um pequeno bloco de apontamentos e uma caneta. Escreveu um endereço de correio electrónico. E um número de telefone. Rasgou a folha e guardou o resto novamente na carteira.

“Quando chegares a casa, manda-me o teu email.”, disse-me ela ao entregar-me a folha. “A Joana manda-te uma lista com o que necessitas e os contactos.”

Eu olhei para a folha. “E o número de telemóvel?”, perguntei-lhe.

“É o número novo. Acho que sabes o que tens que fazer. Ainda vamos a tempo de emendar os erros do passado.”, disse-me ela beijando-me na face.

“Obrigado Filomena.”, agradeci.

Antes de entrar, ela voltou a abrir a carteira. Mas desta vez, tirou uma outra mais pequena. E do seu interior, de entre muitos cartões de outros tantos bancos, retirou uma fotografia.

“Podes ficar com ela.”, disse-me ela segurando-me na mão. “Não deixes escapar esta oportunidade, por favor. Essa anjo precisa de ti.”

Deu-me outro beijo na face e eu fiquei ali a vê-la entrar para dentro do elevador. Depois o elevador desapareceu. E eu fiquei ali. A olhar para aquela fotografia. E a chorar.

Copyright © 2013 Pedro Toscano

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