6 de abril de 2013

#60: A Mensagem #3

Ele caminhava pela avenida principal. Sem pressa. E sem destino conhecido. Chove. Mas ele não leva guarda-chuva. Detesta molhar-se mas gosta de sentir a água a escorrer-lhe pela cara. Adora a frescura que lhe provoca.

Apesar da chuva intensa, as ruas estão cheias. Cruza-se com muita gente mas não olha para ninguém. Casais de idosos, gente que caminha sozinha, grupos de jovens. Ouve-se o som de música. Música de rua. Por entre a multidão consegue ver um homem de meia-idade a tocar viola. Está sentado no chão. Tem a caixa da sua viola aberta diante de si. Dentro da caixa já estão algumas moedas. Naquela zona não chove porque o passeio corre debaixo dos prédios. Ele vai por fora. Afastados do abrigo que proporcionam os prédios.

Tenta pensar em várias coisas. Tenta desviar o seu pensamento. Quer deixar de pensar nela. Quer obrigar-se a parar de pensar nela. Mas acaba sempre por voltar a ela. O passado teima em manter-se no seu presente. Ele sabe que deveria seguir com a sua vida. Longe dela. Mas as recordações são mais fortes. Passaram muito tempo juntos. Torna-se difícil passar esta página da vida.

Subiu o fecho do casaco até cima. O nariz a pingar incomoda-o mas a chuva insiste em não parar. Apertou os botões da gola do casaco para a água não entrar e para não sentir o frio. Voltou a esconder as mãos nos bolsos.

No bolso, o telemóvel vibrou. Uma mensagem. Tirou-o do bolso.

«Tens mesmo de ir?», perguntava-lhe ela.

«Sim! É a melhor opção.», escreveu ele, voltando a guardar o telemóvel no bolso.

Ele tinha que ser forte. Ele tinha que se afastar dela. Aquela relação poderia trazer muitos problemas. Era muito perigoso para os dois continuarem aquele jogo. Ambos se queriam. Disso ele não tinha dúvidas. Foram feitos um para o outro. Mas ambos tinham uma outra vida.

O telemóvel voltou a vibrar. Instantes depois vibrou outra vez. E outra. Era ela que não queria deixá-lo ir. Ele também não queria ir. Mas entendia que era a melhor solução. Para ambos.

Ia tão absorvido nos seus pensamentos que, quando chegou à passadeira para peões, nem reparou no semáforo em vermelho. Um automóvel parou e apitou-lhe. Ele levantou a mão, pediu desculpa e retrocedeu para o passeio. A chuva tinha abrandado. Semáforo verde. Calmamente atravessa a passadeira em direcção ao outro lado da rua.

Apetece-lhe tomar algo. Aproximava-se de um café. Abrandou o passo. Havia pouca gente. Entrou. Escolheu uma mesa e sentou-se. Veio a empregada e pediu-lhe um café. Olhou lá para fora. A rua continuava cheia. Apesar da chuva, naquela cidade, as pessoas saiam sempre à rua. Não eram feitos para estar trancados em casa. A empregada traz o café. Com as mãos em concha, apertou a chávena para aquecer as mãos. Ela não lhe sai da cabeça. Apetece-lhe ler as mensagens que tinham chegado. Fez um esforço por resistir. Levou a chávena à boca. O café estava quente. Quase lhe queima a língua. Sopra para dentro da chávena para tentar arrefecer o café.

Na mesa ao lado, estava pousado um jornal. Pensou ler as notícias mas alguém foi mais rápido que ele.

Decidiu ler as mensagens. Não havia mal nenhum em ler. Eram apenas mensagens. Ela não estava ali. Ele quer parar de pensar no passado. Quer encontrar uma forma de cortar com aquela vida. Olhou outra vez lá para fora. A chuva tinha parado. O dia voltava a estar outra vez mais claro. Levou a mão ao bolso do casaco e retirou o telemóvel. Naquele instante chegou outra mensagem.

«Esta noite estou sozinha. Por favor vem jantar comigo.»

Ele quer afastar-se dela. Mas, tal como ela, ele percebe que não podem estar longe um do outro. Não podem viver separados. Precisam um do outro. Mesmo que ambos tenham outras vidas.

Terminou de beber o café. Levantou-se da cadeira e dirigiu-se à porta de saída. O sol voltava a brilhar. Abriu o telemóvel e pensou durante uns breves instantes.

«Às nove em tua casa!», escreveu ele.

A resposta não tardou. Leu a mensagem. Fechou o telemóvel e guardou-o no bolso.

Copyright © 2013 Pedro Toscano

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