Dirigi-me à recepção do hotel. Aquele hotel tinha sido uma escolha ao acaso. Dos muitos que havia na cidade, aquele era o que se situava mais longe de casa. Pura coincidência.
“Bom dia!”, cumprimentou-me o jovem recepcionista. “Em que posso ajudá-lo?”, perguntou de seguida.
“Desejava um quarto.”, respondi.
“Tem alguma preferência?”, perguntou ele.
Sem perceber o que pretendia com aquela pergunta, olhei-o com surpresa.
“Se deseja um quarto para fumadores.”, esclareceu o jovem recepcionista.
Soltei um sorriso de alívio. “Sim, pode ser para fumadores.”, respondi eu enquanto tentava adivinhar se aquela pergunta tinha sido mera coincidência. Ou se me tinha visto, momentos antes de entrar, a devorar um cigarro. “E é apenas para uma noite.”, acrescentei.
“Pode mostrar-me o seu Bilhete de Identidade, por favor?”, pediu ele.
Procurei a minha carteira nos bolsos do casaco. Retirei o pequeno cartão e coloquei-o em cima do balcão. Ele começou a introduzir os meus dados no computador. Segundos depois, perguntou-me como pretendia pagar a conta. Perguntei-lhe o montante. Ele respondeu-me e olhei para o dinheiro que trazia comigo. Era bastante mais que a conta.
“Se for possível, leve-me uma garrafa de champanhe … do melhor que tenha, por favor.”
Ele olhou-me com ar sério. Depois baixou o olhar para o monitor do computador e introduziu o meu pedido. Quando me disse o total, retirei duas notas de cem euros e paguei a conta.
Ele devolveu-me o troco e a factura. Assinei-a e devolvi-a juntamente com a esferográfica. Guardei a carteira novamente no bolso do casaco e delicadamente empurrei o troco na direcção do recepcionista.
“Guarde-o para si!”, disse-lhe eu perante o olhar de admiração do recepcionista. Não seria habitual receber uma gorjeta tão alta, pensei eu.
Desfazendo-se em amabilidades, o jovem recepcionista indicou-me o número do meu quarto, os horários das refeições e onde se encontrava o elevador. Recolhi a chave e, antes de me dirigir ao elevador, decidi dar uma volta pelo hotel. Para o conhecer um pouco melhor. Afinal de contas não tinha pressa. Tinha todo o tempo do mundo.
Quando entrei no elevador, marquei o oitavo piso.
Ao abrir a porta, deparei-me com um excelente quarto. Aparentemente, merecia o dinheiro que tinha pago. E em cima da mesa já lá estava a garrafa de champanhe. O serviço aparentava ser excelente.
Atirei o casaco para cima da cama. Descalcei os sapatos. Alarguei um pouco o nó da gravata e abri o botão do colarinho. Assim já estava melhor. Fui até à janela. Tinha excelentes vistas sobre a cidade. Abri a janela e todo aquele ar fresco entrou de rompante. Do bolso das calças, retirei o maço de tabaco e o isqueiro. Acendi o cigarro e soltei o primeiro fumo. Lá em baixo, na rua, as pessoas pareciam pequenas formigas. O trânsito infernal, como sempre. Toca o telemóvel. Tiro-o do bolso. Não conheço o número. Atiro-o para cima da cama. Vai pelo ar e continua a tocar. Toca no colchão e cai ao chão. Deixou de tocar. Melhor assim. Já nada me interessa. Nem mesmo aquele caríssimo telemóvel. Nada. Absolutamente nada.
Lentamente, vou devorando o cigarro. Nem o fumo quer ter algo a ver comigo. Mal sai expelido da minha boca, desaparece rapidamente na atmosfera. Apago a ponta do cigarro no cinzeiro. Olho para a garrafa. Ela chama por mim. Hesito. Sei que se a abro, dou cabo dela num instante. Fico na dúvida. Acabar já com isto ou deixar como está durante mais algum tempo. Ligo a televisão. Sento-me na beira da cama. Faço zapping. Nada de interessante. Procuro um canal de música. Um e outro e outro e outro. Este sim. Adoro ouvir música clássica. Olho para a garrafa. Resisto. Ainda não. É muito cedo. Tenho muito tempo. Todo o tempo do mundo. Olho para o relógio. Medito. Talvez já não tenha todo o tempo do mundo. Necessito fazer uma chamada. Tenho que falar com alguém. As coisas têm que seguir um rumo correcto. Sempre fui assim. Nunca gostei de fazer as coisas às três pancadas. Passo a passo. Para não falhar nada.
Estico-me em cima da cama para tentar alcançar o telemóvel caído do outro lado da cama. Não chego lá. Tenho que me levantar para o ir buscar. Ainda de pé, vou passando os números da minha lista telefónica. Chego ao número que me interessa. Estabeleço a ligação. Segundos depois o telemóvel começa a chamar. Chama uma vez. Duas. Três. Quatro vezes. Ninguém atende. Vai para a caixa de mensagens. Desligo. Faço novamente outra ligação. Começa a chamar. Chama uma vez. Duas vezes. Três vezes. Quatro vezes. Ninguém atende. Vai outra vez para a caixa de mensagens. Desligo. Atiro o telemóvel para cima da cama.
Noto-me cada vez mais impaciente. Dou voltas pelo quarto. Agarro novamente no telemóvel. Tento fazer novamente a ligação. Mas toca sem ninguém atender do outro lado. Desisto. Abro a garrafa de champanhe. Verto aquele precioso líquido para um dos copos. Por uns instantes, perco-me, a observar aquelas bolhinhas de gás a subirem à superfície. Levo o copo à boca e bebo tudo de um trago. Encho novamente o copo. E novamente de um trago, bebo. Sento-me na beira da cama. Puxo por outro cigarro. Acendo-o. A nuvem de fumo fica no ar. Agarro o telemóvel. Marco novamente o número. Ninguém atende. Marco outra vez. Novamente ninguém responde. Pouso o telemóvel na cama. Encho novamente o copo. Levo o cigarro à boca. Outra nuvem de fumo fica a pairar no ar. Bebo mais um gole de champanhe. E outro. Ao terceiro acabo com tudo. Olho para a garrafa. Ainda há mais à minha espera. Cigarro na boca. Acaba-se o líquido na garrafa. Último copo. Cigarro na mão. Copo na boca. Garrafa vazia.
Momentos depois, o copo estava vazio. Ao lado da garrafa vazia. Em cima da mesa. O cigarro ardia lentamente no cinzeiro.
Finalmente o telemóvel toca. E toca sem parar.
No dia a seguir, alguém, na rua, compra o jornal no quiosque. Desfolha-o apressadamente até que encontra o que quer.
«Um indivíduo de nome M. R. S. perdeu a vida na tarde de ontem, após ter-se atirado do oitavo andar do Hotel Prestige, na Avenida Fernandes Távora, na zona nobre da cidade. Tudo indica que tenha sido um acto voluntário. Natural desta cidade, M. R. S. “debatia-se com vários problemas de ordem financeira. Estava a ponto de perder a sua casa por se encontrar desempregado e sem possibilidades de continuar a pagar a hipoteca.”, contou um familiar próximo. Outra testemunha próxima à família afirmou que ele terá tentado avisar os familiares da sua intenção de tirar a sua própria vida.»
Copyright © 2013 Pedro Toscano
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