Sigo-a com o olhar. Aprecio cada um dos seus graciosos movimentos. Vejo com atravessa a rua. Caminha lentamente mas com passo certo. Aquela camisa branca e as calças de gangas justas ajustam-se na perfeição àquele corpo bem delineado. Os seus longos cabelos negros esvoaçam ao sabor do vento. Vejo como levanta uma das mãos para segurar o cabelo. Que graciosidade de movimentos.
É uma mulher extremamente bela. Já a conheço. É sofisticada mas muito simples. Não lhe conheço luxos, nem exageros. Nota-se que gosta de cuidar da sua imagem. Sem querer exagerar, é a mulher que todas gostariam de ser. E a mulher que todos os homens gostaria de ter.
Há algo de misterioso nela. Talvez por isso goste de a admirar. Todos os dias faz aquele mesmo percurso. E, sempre que estou em casa, gosto de ir à janela da sala para a admirar. Mesmo que para isso tenha que interromper o que tenho entre mãos. Aquela maravilhosa visão é tudo para mim. Não a perco por nada deste mundo. Algumas vezes observo-a escondido. Não posso evitar. Simplesmente não posso evitar.
Continuo a segui-la. Passa pelo meio do estacionamento que existe do outro lado da rua. Já só lhe vejo o corpo da cintura para cima. Já lhe conheço a rotina. E conheço o seu carro. Está uns metros mais à frente. Dentro de minutos deixarei de a ver. Vejo-a levar a mão à carteira que leva a tiracolo. Procura algo. As chaves, talvez. Espero para ver o que se segue. Vejo-a com o telemóvel. Sempre em andamento, olha fixamente para o visor. Uma mensagem. Abranda o passo. Ainda bem. Assim poderei admirá-la um pouco mais. Parou. Levanta a cabeça e olha para este lado da rua. A esta distância, é difícil determinar o que procura com o olhar.
Agarra o telemóvel com uma mão e com a outra abre a porta do carro. Atira a carteira para o outro banco e senta-se ao volante.
Não insisto mais. Volto a correr as cortinas da janela e volto às minhas tarefas. Amanhã voltarei a assomar-me à janela da sala para a ver. Voltarei a segui-la com o olhar. Voltarei, à mesma hora, a admirar aquela bela mulher. Amanhã. E no dia seguinte. E em todos os que se sigam.
Sento-me no sofá da sala. Agarro no comando da televisão e faço um zapping rápido. Detenho-me num programa de viagens.
Toca o telemóvel. Levanto-me. Pego no telemóvel e leio a mensagem. Era a Mariana. A mulher com quem me casei.
Aquela maravilhosa e bela mulher que, todos os dias, à mesma hora, acompanho com o olhar desde que sai de nossa casa até chegar ao nosso carro.
Copyright © 2013 Pedro Toscano
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