7 de maio de 2013

#77: A Loura

Tinha sido uma manhã bastante intensa. Bastantes problemas para resolver. Longas conversas ao telefone para desbloquear situações complicadas. Problemas causados por outros e que sempre sobram para mim.

Foi com bastante satisfação que vi o relógio marcar as duas da tarde. Hora de almoço. Hora de respirar o ar puro. Hora de liberdade.

Moro perto do trabalho, por isso aproveito as duas horas que tenho para fazer outras coisas. Uma dessas coisas  que gosto de fazer é parar no café do Bernardo. Uns vinte metros depois de sair do trabalho, espera-me uma cerveja para abrir o apetite. E no final do dia, esperam-me outras duas acompanhadas por um ligeiro petisco. O petisco sempre grátis. O Bernardo é boa pessoa. Apesar de o conhecer à pouco tempo, já temos uma excelente amizade.

Ainda antes de entrar no café, vejo o Bernardo com a minha cerveja na mão. Vai colocá-la no meu lugar preferido do balcão. Entro e ele recebe-me com um enorme sorriso.

Sento-me. Alargo o nó da gravata. Abro o botão do colarinho. Liberdade. Sinto-me muito melhor. Levo o copo à boca. Bebo um longo trago. Pouso o copo. Levo a mão ao bolso do casaco. Retiro algumas moedas e o telemóvel.

Tenho várias mensagens no whatsapp. Dou uma vista de olhos. A maior parte são comentários infantis e “bocas fuleiras” por causa do resultado de ontem à noite. A mim, o futebol, já não me diz muito. Divirto-me a lançar a confusão entre os meus amigos.

Há outra conversa pendente. E esta não me agrada muito. Basta ver quem a escreve.

A Júlia é uma loura falsa que trabalha comigo. Extremamente bonita, simpática e alegre. Com um corpo que chama à atenção. Leio com bastante atenção o que escreveu. Uma longa conversa. Já a conheço toda de cor. Começa sempre com o mesmo e depois deixa-se divagar sobre o velho tema de sempre. Desisto de continuar a ler aquilo.

Desligo o whatsapp. Guardo o telemóvel no bolso e verifico as moedas que tenho em cima do balcão. Sobram quinze cêntimos. Guardo-os no bolso.

Levo novamente o copo à boca e bebo mais um trago.

A Júlia não me sai da cabeça. Sorri-o ao pensar numa coisa que me disse no outro dia.

Entretanto, entra no bar, o Sr. Adérito. É o pai do Bernardo. Benfiquista dos sete costados. Passo bastantes horas a conversar com ele acerca de futebol. Melhor dizendo, passo horas a meter veneno quando o Benfica faz um mau resultado. Adoro ver o velhote a esgrimir os seus argumentos.

Ele também já me viu. Vem na minha direcção. Vem ter comigo.

“O teu velho quer festa, Bernardo!”, disse eu em voz alta para que todos pudessem ouvir.

Bernardo sorriu e acenou afirmativamente com a cabeça.

Olho para o relógio. Duas e um quarto. Acabarei por almoçar aqui com o velho Adérito. Como um bitoque, bebo duas cervejas e arrumo esta questão. Hoje não me apetece cozinhar. Hoje não vou ver as notícias. Vai ser futebol, futebol e mais futebol.

O tema Júlia fica para depois. E o que ela me disse não me entusiasma. «Em teoria não me importa ser a segunda, se na prática for a primeira!», disse-me ela.

Eu sou mais do género de aventuras de um dia...

Copyright © 2013 Pedro Toscano

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