26 de maio de 2013

#88: Quarto 310

Eu estava de serviço, no dia em que ela chegou. Mas foi a minha colega de turno que a recebeu. Eu andava às voltas com o computador tentando que ele funcionasse. Sem querer, reparei nela e houve algo que me chamou à atenção. Os olhos verdes na sua pele morena era um contraste difícil de passar desapercebido. Por momentos deixei-me levar pela sua beleza. O computador não era assim tão importante.

Ela apercebeu-se que eu a observava. O tal sexto sentido das mulheres. Olhou para mim. Durante breves instantes os nossos olhares dialogaram. Não era um olhar normal. Era forte. Hipnotizante podia-se dizer. Senti-me envergonhado por ter sido apanhado em flagrante. Mas mantive o olhar. Era mais forte que eu. E ela sorriu. Um doce e tímido sorriso.

Nos dias que se seguiram, ela passou várias vezes diante da recepção. E sempre me sorriu. Sempre soltava um olá. Sempre que eu estava sozinho. Quando havia mais alguém apenas me procurava com o olhar e sorria.

Nunca fui de amores à primeira vista. Nunca tive amores de Verão. Mas aquilo era uma sensação forte. Não sei se era início paixão ou uma pura atracção física. Prefiro pensar que era uma fortíssima atracção física com possibilidades futuras.

Um desses dias veio pedir-me informação sobre os lugares mais bonitos para visitar. Ali estávamos os dois. Sozinhos. Ela à minha frente. Eu atrás do balcão. Separados por um mapa da cidade.

Com muita calma, fui assinalando os lugares merecedores de visita. Fazia um enorme esforço para não me demorar nos seus olhos. Ela parecia não estar muito interessada no mapa. Sempre fui muito tímido com as mulheres e ela punha o meu coração solitário a bater muito forte. E o seu perfume punha-me fora de mim. Era um aroma muito doce. Tal como ela.

Os nossos dedos percorriam as ruas que eu assinalava no mapa. E numa dessas viagens tocaram-se brevemente. E os nossos olhares foram testemunhas desse encontro. Ela não disse nada. Sorriu apenas. Lentamente afastei a minha mão.

Assinalei no mapa os dois bares de moda na cidade. Ela disse que não tinha interesse em conhecer bares. «A menos que tenha uma boa companhia», disse-me ela colocando a sua mão sobre a minha. Naquele instante o meu corpo gelou. Aquilo era, sem dúvida, o que eu estava a pensar. Não só pela mão mas também na forma como o disse e a maneira como me olhou.

Não disse nada. Fiquei calado. Não queria parecer demasiado oferecido, embora o meu eu interior me pedisse a gritos que me oferecesse para sua companhia. Limitei-me a sorrir e a arrumar a esferográfica. Dobrei o mapa. Ela guardou-o na sua pequena mochila.

Ficámos uns instantes em silêncio. Depois deu meia-volta e dirigiu-se à porta de saída. Eu voltei às minhas tarefas.

No dia seguinte, bem cedo, via-a sair do elevador. Trazia a sua mala. A minha colega de turno recebeu-a. Era o dia de saída. Regressava a casa. Eu acabava de tomar o meu café matinal. Ela reparou em mim. Sorriu-me e soltou um «Olá!» mudo. Abanei ligeiramente a cabeça e sorri. Movi os lábios pronunciando outro «Olá!» silencioso. Arrumou a pequena carteira dos documentos dentro da carteira que levava a tiracolo. Depois caminhou na minha direcção. A minha colega, surpreendida, segue-a com o olhar. Ela aproximou-se de mim e, do bolso do casaco, tirou um cartão-de-visita. Coloca-o em cima do balcão e empurra-o na minha direcção.

Sem dizer uma palavra, deu meia volta e foi buscar a sua mala de viagem. Eu permaneci em silêncio. Sem sair do meu sítio. Vi-a dirigir-se à porta de saída. Um táxi esperava-a à porta. Ela entrou e fechou a porta. Depois o táxi desapareceu.  

Olhei para o cartão uma última vez. Guardei-o no bolso da camisa. Quando cheguei à recepção a minha colega recebeu-me com um olhar maroto.

“Senhor Rompe-Corações!”, disse-me ela enquanto ajeitava o nó da minha gravata. “Creio que não deves perder esta oportunidade.”, acrescentou.

Talvez ela tenha razão. Talvez deva seguir o seu sexto sentido. Talvez lhe ligue. Talvez...

Copyright © 2013 Pedro Toscano

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