15 de maio de 2013

#79: Um Destino Diferente

Eu olhava-o nos olhos. Procurava uma resposta. Mas ele mantinha-se em silêncio. Ora olhava para mim, ora baixava o olhar para a chávena de café. Ele queria dar uma imagem de tranquilidade mas eu notava que ele estava muito nervoso.
As conversas que tínhamos mantido durante as últimas semanas levavam-me a pensar que talvez soubesse o motivo pelo qual ele insistiu tanto para termos este encontro. Sem mais ninguém.

Decidi que não iria começar nenhuma conversa. O que era um enorme sacrifício para mim. Eu adoro conversar. Adoro falar. E ele também é um grande orador. É uma pessoa que quando se sente confortável, quando está rodeado pelos seus amigos, adora ser o centro das atenções. Seja qual for o tema, ele tem sempre uma opinião para dar.

Mas hoje vejo que tem medo de falar. Que raios! Se foi ele que me convidou, se sempre fala pelos cotovelos e já somos amigos há bastante tempo, por que motivo se cala?

Já ali estávamos sentados há mais de dez minutos. Trocando olhares em silêncio. Começava a perder a paciência.

“Vamos ficar aqui a tarde toda a olhar um para o outro?”, perguntei-lhe.

“Não, não … vamos conversar! Eu tenho algo para te dizer”, respondeu ele fazendo uma curta pausa. “Quero confessar-te uma coisa.”, acrescentou.

“Eu sei que deves ter algo para me dizer!”, disse eu. “Caso contrário não me tinhas convidado para tomar café. Ou não?”, perguntei-lhe.

Foi então que a sua atitude mudou. Vi como levou a chávena à boca e acabou com o café. Depois pousou a chávena. Agarrou num guardanapo e limpou a boca. Ia falar. Já tinha visto todo aquele cerimonial. Era o que sempre fazia, quando estava com os amigos, antes de tomar a palavra.

Recostei-me na cadeira. Ia sair um discurso. Talvez de longa duração. Coloquei-me numa posição ainda mais cómoda. Passei os dedos pelos meus cabelos dourados. Cruzei a perna esquerda sobre a perna direita. Tapei melhor as pernas com a saia. Sei que tenho pernas muito bonitas mas não gosto de as mostrar. Quando levantei o olhar vi como me observava. Percebi que se tinha chateado comigo. Talvez por eu não lhe dar a atenção que ele queria. Parei de acariciar a minha saia. Deixei de contemplar as minhas belas pernas. Esqueci-me que trazia aqueles magníficos sapatos que tinha comprado ontem. E prometi que não ia brincar com as minhas pulseiras. Tinha que lhe dar atenção. Sentei-me direita na cadeira e olhei-o nos olhos. Com aquele olhar de «Ok! Já tens a minha atenção. Desembucha!»

E foi o que aconteceu. Ele começou a falar e eu escutava-o.

“Nanda.”, disse ele.

«Que estranho!», pensei eu. «Nunca me tinha tratado assim. Sempre me trata por Fernanda.»

“Sabes que somos amigos há muitos anos. E se não sabes...”, fez uma pausa no seu raciocínio, “... eu gosto muito de ti. Para mim és uma pessoa muito especial. Já passámos muitas coisas juntos...”

“Que coisas passámos juntos?”, interrompi eu.

“Coisas! Já sabes … os almoços, os jantares, as férias com o resto dos nossos amigos.”, respondeu ele.

“Ahhh … isso! Sim … temos passado bons momentos em grupo!”, afirmei eu com desdém.

Ele ficou sem saber o que dizer. E eu, apesar de estar a olhar para ele, deixei que o meu pensamento divagasse um pouco sobre o que acabava de ouvir. Realmente tínhamos passado muitas coisas juntamente com o resto do grupo. Coisas normais, para mim. Mas daí a dizer que «passámos muitas coisas juntos» naquela maneira melosa, isso não! Nunca se tinha passado nada de especial entre nós.

“Há uma coisa que quero confessar-te!”, continuou ele, interrompendo o meu pensamento. “Considero-te uma mulher formidável, bonita e inteligente...”

«Não percebo por onde queres ir!», pensei eu comigo mesma.

“... És muito especial. Adoro todos os momentos em que estivemos juntos...”

«Outra vez a mesma conversa!», pensei eu. Começava a ficar cansada.

“Quero pedir-te em casamento!”, afirmou ele.

«Como? O quê? Será que estou a ouvir bem?», perguntei a mim mesma, esticando-me na cadeira. Ouvir aquilo foi como sentar-me em cima de algo pontiagudo. Ele reparou na minha cara de estupefacção.

“Sei que é um pouco apressado...”, reconheceu ele. “E talvez não esteja a fazer as coisas da melhor maneira”, acrescentou.

Fiquei sem saber o que fazer. Na verdade até sabia, mas tinha sido apanhada de surpresa. Esperava outro assunto.

Permanecemos em silêncio durante largos minutos. Um silêncio que incomodava. Nenhum de nós queria dizer fosse o que fosse. Talvez por medo de dizer alguma coisa que pudesse magoar o outro. Talvez por não saber o que dizer.

Passei várias vezes as mãos pelo cabelo. Tentava disfarçar o nervosismo. Sentia-me incomodada por tudo o que se havia passado.

“Não estava à espera que me pedisses em casamento, Miguel.”, disse-lhe eu respirando fundo. “A sério que não estava.”

Miguel estava cada vez mais nervoso. Já tinha reparado que as suas pernas não paravam quietas. Estava super nervoso. E eu nunca o tinha visto assim. Esperava a minha resposta.

“Não posso aceitar!”, disse-lhe eu. “Peço-te desculpa se alguma vez fiz alguma coisa que te levasse a pensar que isso seria possível, mas … não pode ser!”, afirmei eu com ar pesaroso.

A minha resposta foi um choque para ele. Vi como ficou destroçado. E deu-me pena. Vi como recolheu o telemóvel e o guardou no bolso das calças. Arrastou a cadeira e levantou-se.

“Ao menos podes dizer-me se há alguém na tua vida?”, perguntou ele.

“Sabes bem que não há mais ninguém na minha vida.”, disse-lhe eu com toda a convicção.

Miguel afastou-se cabisbaixo. Tive pena dele. Mas não lhe podia dizer a verdade. Não lhe podia dizer que o Henrique era o homem da minha vida. Não lhe podia dizer que o Henrique é o homem com que um dia vou casar. E, quando ele me pedir em casamento, eu direi que sim.

Copyright © 2013 Pedro Toscano

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