O táxi saiu da estrada asfaltada e entrou num caminho de terra batida. Atrás de si deixava uma intensa nuvem de pó. Uns metros mais à frente parou num estacionamento. Não havia mais nenhum carro. Não havia ninguém.
A porta abriu-se e o condutor saiu do táxi. Deu a volta ao carro e foi abrir a porta para que o passageiro pudesse sair.
Com bastante dificuldade e apoiando-se numa velha bengala, um idoso saiu do carro. Apoiando-se no braço do taxista, o idoso caminhou lentamente até à entrada daquele lugar. O portão estava apenas encostado. O taxista empurrou o portão e este abriu-se sozinho. Depois deixou que o idoso fizesse o resto do caminho sozinho.
Com bastante dificuldade e apoiando-se numa velha bengala, um idoso saiu do carro. Apoiando-se no braço do taxista, o idoso caminhou lentamente até à entrada daquele lugar. O portão estava apenas encostado. O taxista empurrou o portão e este abriu-se sozinho. Depois deixou que o idoso fizesse o resto do caminho sozinho.
Enquanto o observava a afastar-se, acendeu um cigarro. Tirou o telemóvel e marcou o número da Central.
“Antunes … não quero mais fretes. As próximas duas ou três horas vou estar ocupado.”, disse ele quando alguém lhe falou do outro lado da ligação. “Sim … eu sei que era um serviço rápido … não faças perguntas … depois eu explico-te … Até logo!”, foi respondendo pausadamente a todas as perguntas que lhe faziam. Depois desligou o telemóvel.
Quando guardou o telemóvel no bolso das calças, levantou o olhar e viu que o idoso já tinha chegado ao lugar que queria. Estava sentado.
Fernandes, taxista de profissão, quase reformado, que passou três comissões em terras da Guiné durante a Guerra Colonial, pensou que já tinha visto tudo ao longo da vida. Tinha perdido camaradas de armas na guerra. Chorou por eles. Chorou quando viu nascer os seus dois filhos. Chorou quando enterrou os seus pais. E desde então deixou de chorar. Mas hoje aquele velhote fez com que velhas mágoas viessem ao de cima. E vê-lo ali sentado fez com que chorasse. Meio envergonhado, olhou à sua volta. Não havia mais ninguém … podia chorar. E chorou.
“Houve tanta coisa que ficou por dizer entre nós … eram tempos diferentes aos de hoje … tu tinhas que lutar por nós … nunca pudeste estar comigo quando mais te necessitava.”, disse o velhote entre lágrimas. “Muitas vezes te amaldiçoei e te critiquei por não estares presente quando fostes necessário … e sabes uma coisa? Acabei por fazer o mesmo!”, continuou enquanto tirava os óculos de lentes grossas da cara. “E sabes do que mais me arrependo? … Nunca te ter agradecido o suficiente … nunca te agradeci tudo o que consegui graças ao teu esforço … Desculpa-me papá!”, confessou ele enquanto limpava as lágrimas que lhe corriam pela face. Depois voltou a colocar os óculos na cara. E com bastante dificuldade conseguiu levantar-se sozinho.
Fora do cemitério, Fernandes observava-o a regressar ao carro. Quando o idoso chegou ao portão, Fernandes atirou o cigarro ao chão e pisou-o para o apagar. Depois foi na sua direcção e com muito cuidado abraçou-o. Fernandes sabia o motivo daquela ida ao cemitério. Ele tinha ouvido toda a história durante a viagem. Fernandes também nunca agradeceu o que conseguiu graças ao esforço do seu pai.
Ele não conhecia aquele velhote de lado nenhum e abraça-lo foi a melhor maneira que ele encontrou de pedir perdão e, ao mesmo tempo, consolar aquela alma cansada.
Ele não conhecia aquele velhote de lado nenhum e abraça-lo foi a melhor maneira que ele encontrou de pedir perdão e, ao mesmo tempo, consolar aquela alma cansada.
“Ainda tem um cigarro?”, perguntou o idoso.
Fernandes tirou o maço de tabaco do bolso da camisa e estendeu-lhe um cigarro.
“Já vivi tudo o que tinha para viver. Agora estou feliz … e aliviado … que se lixe o que dizem os médicos!”, disse ele enquanto Fernandes lhe acendia o cigarro.
Copyright © 2013 Pedro Toscano
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