Ontem à noite, quando fomos para a cama, deixámos a persiana da janela aberta. Era um hábito antigo que tínhamos todos os Verões. Gostávamos de acordar com o sol a entrar pela janela. Era uma excelente forma de acordar.
Eu sempre dormia de barriga para cima e a Madalena sempre adormecia com a sua cabeça sobre o meu peito. E não sei como o fazíamos mas sempre acordávamos assim. Durante a noite dávamos voltas e mais voltas na cama. E sempre que fazíamos amor dormíamos em variadas posições. Mas sempre acordávamos assim.
E eu, adorava acariciar-lhe os seus longos cabelos castanhos, todas as manhãs. Era capaz de estar assim durante muito tempo. Acariciando-lhe o cabelo ou acariciando-lhe o braço com que me abraçava.
- Bom dia! - disse-me ela, com uma voz ensonada, ao acordar.
Beijei-a na testa, como sempre fazia todos os dias. Era o nosso primeiro beijo do dia. E era assim há muitos anos.
- Dormiste bem? - perguntei-lhe. Não precisava esperar pela sua resposta. Eu sabia que ela sempre dormia bem. Não sei como o fazia mas ela sempre dormia bem. Dormia como um bebé.
Eu tentava dormir. Fazia um esforço para dormir. Mas a verdade é que eu não dormia bem. Pelo menos, não dormia tão bem como ela.
- Pensas demasiado nas coisas. Vive a vida! - respondeu-me ela vendo-me pensativo. E apoiou o seu queixo no meu peito.
E eu nunca me cansava de a ouvir. Todas as manhãs tinha um conselho para mim. E eu escutava com muita atenção. Mas não conseguia colocar em prática tudo o que ela me dizia. Eu sabia que ela tinha razão. Ela sempre teve o dom da razão. Mas eu não conseguia assimilar. Era muito duro para mim.
- Não penses nisso! - continuou ela. - Não quero que esqueças ou ignores … quero que aceites o que a vida nos deu. Só isso!
Eu não podia parar de admirar aquele sorriso. Todas as manhãs me brindava com um sorriso maravilhoso. Passados tantos anos, ela ainda tinha o dom de me derreter com aquele sorriso. Aquele bonito sorriso.
Ela levantou-se ligeiramente e deitou-se em cima de mim. Agora vinha a fase em que ela começava a brincar com os meus pêlos do peito. E eu deixava-a fazer aquilo. Ela adorava enrolar os seus dedos nos meus pêlos. Parecia uma criança pequena com um brinquedo novo. E eu adorava aquela criança. A mulher da minha vida. Trinta e cinco anos juntos.
Quando se cansou de enrolar todos os pêlos, perguntou-me o que eu queria para o pequeno-almoço. Sempre me preparava o pequeno-almoço. Era outro dos seus mimos diários que me oferecia. Um beijo ou um sorriso ao acordar, enrolar-me os pêlos do peito e preparar-me o pequeno-almoço.
É certo que o nosso casamento não era um mar de rosas. Tínhamos as nossas discussões, como todos os casais. Mas as nossas manhãs eram assim. Tranquilas.
Depois do pequeno-almoço, a nossa vida, seguia o seu rumo normal. Tarefas da casa, trabalho, cuidar dos filhos. Uma vida normal. Uma vida cheia de stress. Mas o nosso despertar era especial. Era diferente. E ela sempre me disse o mesmo … «Não penses nisso!».
๑۞๑
Acordei com o barulho da persiana a abrir-se. Abri os olhos e lá estava ele. O Manuel. O meu pequeno Manuel. Uma criança irrequieta que me tinha prometido acordar-me todos os dias. E todos os dias, me acorda, quase sempre à mesma hora. Ele gostava que o levasse à escola. E eu todos os dias o levo à escola. Aos fins-de-semana gostava de dormir mais um bocado. E, quando acorda, gosta de se meter na minha cama. E depois vamos os dois ver os desenhos animados. E todos os fins-de-semana vemos os desenhos animados juntos.
No fim de levantar a persiana, atirou-se para cima da cama, meteu-se debaixo da roupa e encostou-se a mim.
- Dormiste bem? - perguntou o pequeno Manuel.
- Sim! E tu? - perguntei-lhe entrelaçando os dedos das minhas mãos atrás da cabeça.
- Tive um pesadelo! - respondeu ele. - Mas não fiz xixi na cama! - gracejou ele.
Sempre que tinha pesadelos, o Manuel sempre fazia xixi na cama. E sempre ficava triste por isso. Um dia disse-lhe que eu de vez em quando também fazia xixi na cama. E ele ficou admirado. Disse-me que fazer xixi na cama era coisa de meninos e que eu já não era um menino. Portanto não devia fazer xixi na cama. Ele não entendia que um adulto, a partir de determinada idade, também tinha problemas de saúde e às vezes fazia as mesmas coisas que um menino da idade dele.
Ali estivemos a conversar durante algum tempo. Até que o despertador tocou. O Manuel ergueu-se da cama e desligou o despertador. Estava colocado na mesa-de-cabeceira do seu lado. Depois deitou-se outra vez a meu lado.
- Podemos ficar mais um bocadinho na cama? - perguntou ele.
- Não te apetece ver os desenhos animados? - perguntei eu surpreendido.
- Quero! Mas apetece-me ficar aqui mais um bocadinho. - respondeu ele. - A fazer-te companhia! - acrescentou.
A verdade é que todos os fins-de-semana, sempre ficávamos mais um bocadinho na cama a conversar. Ele contava-me as suas aventuras na escola. Eu contava-lhe as minhas histórias de quando eu andava na escola. Falava-me das suas namoradas. Em especial daquela menina lourinha chamada Marta. Eram bons amigos. E, quando se acabavam as histórias, planeávamos como ia ser o fim-de-semana.
O Manuel tinha apenas nove anos. Mas era um menino muito inteligente. Uma vez pediu-me para lhe ensinar um poema para ele dizer à Marta. Nunca mais me esqueci desse dia. E ele nunca mais se esqueceu do poema.
- Conta-me o teu sonho. - pediu-me ele.
- E como sabes que eu tive um sonho?
- Porque tu sempre dizes que as pessoas grandes sonham!
Aquele pequeno não podia entender que os adultos às vezes também têm pesadelos. E que muitas vezes tentamos não pensar no que sonhamos. Preferimos dar ouvidos à crueldade da vida real e esconder os sonhos.
É certo que eu ainda sonho. Mas também tenho pesadelos. Creio que a maioria dos meus sonhos servem apenas para dar alegria às minhas noites. E, quando acordo, esse bonito sonho dá lugar à dura realidade. Por isso, gosto de ficar mais um pouco na cama, todas as manhãs. Para que o sonho dure mais algum tempo. Mesmo que esteja acordado, enquanto estiver deitado na cama, o sonho continua.
E enquanto pensava na pergunta do pequeno Manuel, pensava também no meu sonho. O sonho que me mantinha vivo. O sonho que eu tentava manter vivo todas as manhãs. E, sempre que penso nesse meu sonho, acabo por chorar.
O pequeno Manuel reparou que algumas lágrimas rolavam pela minha face. Levantou-se e com a manga do pijama limpou-me a cara.
- Sonhaste com ela não foi? - disse-me ele encostando a sua carita à minha. - Não chores, por favor!
Era difícil não chorar. Sempre que penso nela, choro. Todos os dias choro. Mas aquele sonho mantém-me vivo.
- Sim, Manuel. O avô sonhou outra vez que tinha acordado com a avó! - respondi-lhe eu.
Tenho saudades dela. Muitas saudades mesmo. Lembrar-me dela ou sonhar com ela faz-me sofrer mas, ao mesmo tempo, faz-me recordar todas as suas palavras e assim sentir que ela não partiu. Gosto de sentir que, todas as manhãs, ela acorda a meu lado. E, essa sensação, estou certo, vai-me acompanhar até ao dia em que volte a estar com ela.
Ela tinha razão! Não devo pensar nisso. Não devo pensar que ela partiu. Basta-me sonhar com ela e viver a minha vida.
Ela nunca partiu. Ela continua a meu lado todas as manhãs!
Copyright © 2012 Pedro Toscano
Sem comentários:
Enviar um comentário