O dia tinha sido péssimo. E os anteriores também. Estava destroçado!
O chefe tinha-lhe estragado o dia. Tudo por causa da porcaria do futebol. E ele que não liga nenhuma ao jogo. O maldito chefe que tem, adora fazer a vida negra aos seus empregados, quando o seu clube ganha. Detesta as segundas-feiras!
A namorada tinha-lhe estragado o fim-de-semana. Ele sabia que passar dois dias na casa dos pais da Catarina era má ideia. Detesta ficar fechado em casa dos futuros sogros todo o fim-de-semana!
Bruno sabe que tudo isto são fases. E tudo acaba por passar. A um dia de chuva sempre sucede um dia de sol. A uma segunda-feira sempre sucede uma terça-feira. Tudo acabará por passar. Mas detesta ter dias assim!
Ultimamente as coisas não andam a correr bem. Anda a acumular muitas frustrações. Muitos dias maus. Muitas discussões. Começa a ficar farto. Acima de tudo … anda farto de discutir com a namorada!
Quando entrou no bar, só havia um lugar vazio junto ao balcão. O bar estava cheio. Mas não se importou com isso. Pelo menos ia ter uma noite agradável. Conhecia o dono. Eram amigos de longa data. Bebiam umas cervejas e falavam horas a fio. Mas nunca de futebol. Nem de religião. E muito menos de política.
Mas não conseguia parar de pensar na discussão com a Catarina. «Porra! Se ainda é namorada e as coisas já estão assim … como será quando casarem?», perguntou-lhe uma vez o Diogo. O Diogo é o dono do bar. E essa pergunta ficou-lhe na cabeça. E todos os dias pensa nisso.
“Olá Bruno!”, disse-lhe uma voz a seu lado. Era uma mulher que se tinha metido entre ele e o outro tipo sentado ao seu lado. Era linda, com cabelo preto longo e bem maquilhada. Ele conhece aquela cara, mas não se lembra de que lugar. “Eu sou a Ângela. Trabalho nos Recursos Humanos.”
“Claro! Nos Recursos Humanos.”, respondeu-lhe com um sorriso.
“Hoje também tiveste um dia lixado, não foi?”, perguntou ela.
Bruno ficou sem saber o que responder.
“O chefe não foi à Contabilidade gozar com a malta?”, perguntou Ângela.
“Ahh … já estou habituado.”, respondeu Bruno.
“Já começo a ficar farto daquele tipo! E tu?”
“Um pouco! Mas o gajo faz aquilo para esquecer que lá em casa a mulher é que veste calças.”, respondeu Bruno soltando uma gargalhada.
Mas apesar da gargalhada, Bruno não parava de pensar na Catarina. Era uma excelente mulher. Talvez a melhor namorada que teve até hoje. Não teve muitas. Mas talvez fosse a mais normal de todas. Não tinha obsessão com o seu peso, mesmo não sendo gorda. Detestava ler as revistas femininas. Não andava vestida de acordo com a moda. Era uma mulher culta, para a sua idade.
“Detesto gente assim. Incapaz de respeitar os gostos de cada um.”, disse Ângela aproximando-se um pouco mais de Bruno.
Claro que Bruno também detestava o patrão. Mas sempre era melhor ter um patrão chato que não ter trabalho. De qualquer maneira, o ordenado que auferia compensava aquelas chatices. Mas um patrão não deveria comportar-se daquela maneira, disso não tinha dúvidas.
Bruno sentia a mão de Ângela cada vez mais próxima da sua. E sentia o doce aroma que emanava. E o corpo dela cada vez mais próximo do seu. Apenas uma pequeníssima parede de ar separava as mãos de ambos. Bruno sentia que bastava um pequeno movimento e aqueles corpos chegariam a tocar-se. Ele recordava aquele tipo de abordagem. Agora tinha que ser ele a dar o próximo passo. Bruno sabe que se der o seguinte passo, a noite não terminará no bar. Se ele avançar ...
Mas a Catarina não lhe saía da cabeça. Ela também tinha coisas más. Era teimosa. E custava-lhe reconhecer os seus erros. E não está aqui.
Bruno inspirou lentamente. E expirou. Levou o copo de cerveja à boca. E bebeu um longo trago. Pousou o copo. A sua mão esquerda mantinha-se na mesma posição. A mão de Ângela não se tinha movido. Mas o seu corpo sim. Ela estava cada vez mais próxima dele. Bruno tinha que tomar uma decisão. Ou tocar-lhe ou continuar a falar de coisas chatas e aborrecidas.
Levou uma última vez o copo à boca e, terminou a cerveja, de um trago apenas. Tinha tomado a decisão.
Copyright © 2013 Pedro Toscano
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