Era um daqueles dias gélidos de Inverno. Paulo ia bem agasalhado mas, mesmo assim, o vento frio entrava para dentro do casaco e provocava-lhe uma sensação de mal-estar.
Estava quase a chegar ao seu destino. Levou, pela última vez, o cigarro à boca. Com cuidado para não queimar as pontas da luva. Chegando à esquina da rua só tinha que virar à esquerda.
Ao virar a esquina, viu a enorme fila. Sentiu-se angustiado. Olhou para o relógio. Ainda falta um quarto de hora para a abertura. Resta-lhe esperar. Esperar ao frio.
Colocou-se no último lugar da fila. Tinha contado as pessoas que estavam à sua frente. Umas trinta. Vai estar ali a manhã inteira. Uma manhã perdida. Uma manhã olhando para todas aquelas caras. Esperando a sua vez.
Quando finalmente abriram as portas. Toda aquela gente foi entrando ordenadamente. Os fumadores acabavam os cigarros apressadamente.
Quando chegou a sua vez para retirar a senha, o vigilante perguntou-lhe qual o motivo de ele estar ali. Paulo disse-lhe o motivo e mostrou-lhe a pequena folha que levava dobrada no bolso do casaco. O vigilante deu-lhe uma senha e indicou-lhe a sala de espera. Arrumou novamente a pequena folha, agarrou na sua senha e foi procurar um lugar para se sentar.
Viu um lugar vazio lá ao fundo. Era um sítio perfeito. No canto. Escondido. E que ninguém se sentasse ao seu lado. Estava moralmente arrasado. Não tinha temas de conversa. Não queria socializar com ninguém.
Sentou-se. Procurou o painel de informação. Olhou para a sua senha. Olhou novamente para o painel. Tinha vinte pessoas à sua frente. Abriu o casaco e retirou o mini leitor de música. Talvez aquilo ajudasse a que a espera não fosse tão angustiosa.
Tentava não pensar no motivo por que estava ali. Era impossível. Não havia forma de evitar. Toda aquela gente ali esperando obrigava-o a pensar naquilo.
Uma vida inteira a lutar. Um dia acordamos e o que tínhamos já não existe. Tanto esforço. Tanta dedicação. Tantas horas. Mas, no fundo, Paulo sabia que o que lhe tinha acontecido, podia acontecer a qualquer um. São aquelas coisas que ninguém pode controlar. Mas era duro viver aquela situação.
O tempo passou e a cada som que o painel de informação emitia, Paulo olhava e confirmava a sua senha. Os números foram passando e a sua vez chegou. Levantou-se, agarrou no seu casaco e dirigiu-se ao posto que lhe cabia.
Entregou a sua documentação. O funcionário confirmou os dados e de imediato começou a escrever coisas numa pequena folha. Depois mandou imprimir qualquer coisa.
“Efectivamente, Sr. Paulo, confirma-se o que lhe disseram ao telefone.”, disse-lhe, em tom pesaroso, o funcionário, mostrando-lhe a folha que tinha acabado de imprimir.
Paulo não quis ouvir mais nada. Recolheu as suas coisas e a folha que lhe mostrou o funcionário. Vestiu o casaco e saiu sem se despedir.
E agora, como vai conseguir pagar a hipoteca? E os estudos da filha? Maldito patrão que o despediu!!! Despedido aos cinquenta anos ...
Copyright © 2013 Pedro Toscano
Fotografia de David Castillo Dominici
oo0oo
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:-((
ResponderEliminarOi,
ResponderEliminarGostaria de saber melhor o que o personagem pensou, SENTIU durante o tempo da história. Queria ter lido, nas suas palavras, a angustia, o medo, a ansiedade, a revolta, o nervoso miudinho... a personalidade do personagem. Queria que você tivesse escrito, com as suas palavras, essas sensações que em algum dia nós leitores sentimos, mas não conseguimos expressar como você, queria assim me identificar mais com a sua história, me sentir mais tocada pela sua personagem
Beijos
Olá.
EliminarAntes de mais agradeço o teu comentário. Tentarei explicar com alguns exemplos ...
Neste tipo de história (em que tento não ultrapassar as 500 palavras) não há muito "espaço" para descrever tudo ao "milímetro". De qualquer maneira poderei referir algumas passagens que revelam os estados de alma do personagem.
- o nervoso miudinho: "Com cuidado para não queimar as pontas da luva". Um fumador no seu estado normal deita fora o cigarro antes de chegar ao filtro. Quando está nervoso fuma o cigarro até queimar todo o tabaco. Fumar relaxa-o e aproveita o cigarro até ao fim. Um fumador quando sabe que não tem dinheiro para comprar tabaco, fuma o cigarro até ao fim (até ao filtro, entenda-se). É muito frequente ver mendigos andando pelas ruas recolhendo as pontas de cigarros que não estão queimados até ao fim!
- a vergonha, a angústia, o medo de ser reconhecido: "Viu um lugar vazio lá ao fundo. Era um sítio perfeito. No canto. Escondido.". Muitas das pessoas ainda têm receio de ser apontadas como "chulos da sociedade" quando estão desempregados. Muitos não aguentam essa pressão e tentam esconder-se ou passar desapercebidos, não falam do assunto e não falam com ninguém com medo de serem recriminados, mesmo que a outra pessoa também esteja desempregada.
- nervosismo, ansiedade: "O tempo passou e a cada som que o painel de informação emitia, Paulo olhava e confirmava a sua senha." Uma pessoa quando está nervosa sempre que ouve o som do painel de informação vai confirmar o número da sua senha. Quer estar seguro que não deixa passar a sua vez. Quer "despachar" aquilo o mais rápido possível.
Eu gosto mais de descrever os sentimentos de um personagem através de atitudes e não tanto com palavras.
Eu, por exemplo, não sou de falar do que me vai na alma mas, quem me conhece, através dos meus actos diários sabe como me encontro emocionalmente.
Espero ter conseguido responder às tuas questões.
E um MUITO OBRIGADO por leres as minhas histórias.