9 de janeiro de 2013

#22: Ernesto


Ernesto era um solteirão sexagenário.

Um dos seus passatempos preferido era dormir. Deitava-se por volta das dez da noite e levantava-se às oito da manhã. Gostava de cumprir religiosamente o horário de sono nocturno. Fosse dia de semana ou fim-de-semana!

Para ele, aquelas dez horas de sono eram sagradas. Nada era mais importante. Nem mesmo um jogo de futebol do seu clube.

Durante a manhã dedicava-se às poucas tarefas domésticas que tinha. E quando as terminava, vestia o seu velho fato de treino azul e saía à rua. Mas não ia muito longe. Andava uns duzentos metros e entrava no café ao final da sua rua. Ali ficava o resto da manhã. Bebia duas ou três cervejas. E conversava com quem aparecesse.
Ernesto tinha um problema de fala e, muitas vezes, as outras pessoas limitavam-se a sorrir e a acenar com a cabeça. Quem já o conhecia percebia o que ele dizia. Os outros nem por isso. E ninguém tinha coragem para lhe pedir que repetisse o que tinha dito antes. Não fosse o Ernesto ficar magoado.

Depois do almoço vinha a recompensa. Três horas de sesta religiosamente cumpridas. Após a sesta da tarde, Ernesto saía a passear. Era seu hábito dar longos passeios pela cidade. Adorava passear pela cidade. E, já no final do passeio, repetia a paragem no café ao final da sua rua. Desta vez, bebia apenas uma cerveja. Dois dedos de conversa e outra vez para casa. Tratar do jantar e ver algum filme interessante. E preparar para dormir.

Ernesto considerava-se uma autêntica máquina de dormir. Não tinha problemas em adormecer. E era capaz de dormir toda a noite como uma pedra. Sempre foi bom de cama. Nunca estranhou uma cama. Diz ele que o sono é meio alimento.

O mais importante era que os vizinhos de cima não estivessem em casa. Nesse caso, era o paraíso. Caso contrário era um martírio! Quando conseguia adormecer às dez da noite, acordava sobressaltado às três ou quatro da madrugada. Se não adormecesse às dez, só conseguia pregar olho lá para as onze da noite. Sempre pelo mesmo motivo. O barulho que faziam os seus vizinhos!

Não o incomodava o tom de voz dele. Chateava-o a barulheira que fazia quando chegava a casa bêbado. Não o incomodava a voz estridente dela. Incomodava-o os malditos sapatos de santo alto de um lado para o outro.

Ernesto abriu os olhos e pegou no relógio.

“Porra para isto! Já passa das quatro da manhã!”, resmungou ele.

Os seus queridos vizinhos já estavam em casa. Já os tinha ouvido a falar alto. Já tinha ouvido os saltos altos. Já os tinha ouvido descarregar a sanita duas ou três vezes.

E agora estavam em pleno acto sexual!

«Maldita cama que só faz barulho! E maldita mulher que não é capaz de fazer aquilo com a boca fechada!», pensava Ernesto com os seus botões. Tinha que se resignar e esperar, pelo menos, mais meia hora até que ela se satisfaça por completo. «Maldita ninfomaníaca!»


Copyright © 2013 Pedro Toscano
Fotografia de Stockimages

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