Era um domingo normal como tantos outros ao longo do ano e o padre Fernandes, como sempre, tinha chegado algum tempo antes para preparar a missa.
Era um padre jovem, alegre e tinha o dom da palavra. Assim o definem na sua paróquia. Para ele, tratava-se de cumprir o melhor possível a sua missão na Igreja.
Ao padre Fernandes não se lhe conheciam vícios graves. Não fumava e não bebia. Não era adepto do futebol, embora acompanhasse a equipa da aldeia. Não era muito dado às novas tecnologias, embora tivesse telemóvel e página em várias redes sociais. Gosta de dar mais valor à vida real, em detrimento da vida virtual.
Fora do horário, gosta muito de passar algumas horas na coletividade da aldeia. Adora jogar às cartas com os que por ali passam. Mas nunca a dinheiro. Apenas pelo prazer de jogar às cartas. E nunca bebe bebidas alcoólicas. Muitas vezes gozaram com ele, sobretudo nos primeiros meses, quando sentado à mesa com outros jogadores, ele pedia sumo ou água para beber. E todos à sua volta bebiam vinho ou cerveja. Com o tempo habituaram-se ao seu estilo. Já ninguém goza com ele.
As pessoas mais idosas adoram os seus sermões. Eram alegres e cativantes. Ao contrário do seu antecessor, o padre Alberto e os seus longos e maçadores discursos.
A sua vinda, para substituir o padre Alberto, foi uma lufada de ar fresco. E teve o dom de chamar, novamente aos bancos daquela secular igreja, a pessoas que se tinham distanciado. O padre Alberto, apesar de ser boa pessoa, quando as coisas não lhe corriam de feição, tinham o dom de se transformar numa pessoa com um tremendo mau génio. E a lista de conflitos era enorme. Mesmo assim, na sua festa de despedida da paróquia, o salão paroquial esteve a abarrotar. No final, os fiéis, sempre acabam por perdoar.
Quando o padre Fernandes se dirigiu ao altar, toda a assembleia se levantou. Ia começar a missa de domingo.
Durante uma hora, ninguém se distraía. Todos se deleitavam com a forma como ela dava a missa. Escutavam cada uma das suas palavras. Participavam sempre que ele pedia. O coro cantava com uma alegria nunca antes vista. Antes, o coro era formado por quatro ou cinco pessoas já de meia-idade. O coro do padre Fernandes era formado por vários jovens, havia duas guitarras para acompanhar os cânticos e toda a assembleia acompanhava.
“O padre Fernandes hoje está triste.”, segredou uma das idosas sentada na fila da frente.
“Também já tinha notado algo estranho.”, respondeu-lhe a que se sentava à sua direita.
“Pouco barulho! Estamos na missa!”, disse outra repreendendo as duas amigas.
Até ao final da missa já não houve mais conversa entre as três amigas. Mas elas tinham razão. Algo se passava com o padre Fernandes. Ele não se sentiam bem. Não era nada físico. Algo o atormentava. Algo o matava por dentro. Um sentimento de culpa!
Quando o padre Fernandes proferiu a frase “Vamos em paz e que o Senhor Vos acompanhe”, toda a assembleia se levantou. Mas o padre Fernandes fez um sinal e pediu a todos que se conservassem nos seus lugares.
“Caros paroquianos! Como sabeis, estou aqui há quatro anos. Têm sido quatro anos maravilhosos ...”
“Eu não te disse? Eu sabia que se passava algo. De certeza que se vai embora para outro lado. Que Deus não o permita!”, disse a senhora de idade benzendo-se.
“Ao longo destes quatro anos passaram-se coisas muito agradáveis e coisas menos agradáveis. Nunca fechei as portas de minha casa a ninguém. Sempre escutei os vossos problemas e, antes de dar conselhos, reflecti muito. Tentei entender todas as vossas opiniões e aceitar as que não estavam de acordo com os meus princípios como pessoa. Porque é de pessoas que estamos a falar. Eu sou uma pessoa como todos Vós. Com uma missão diferente da vossa … mas sou uma pessoa!”
Todos se olhavam. Ninguém entendia o que o padre Fernandes queria dizer com aquelas palavras. Nos últimos tempos não se tinha passado nada de anormal em toda a paróquia.
“Caros amigos! Caras amigas! Esta foi a última missa que celebrei como sacerdote!”, disse ele.
Aquela notícia caiu como uma bomba na igreja. As pessoas falavam entre si. Esgrimiam motivos. O padre Fernandes saiu detrás do altar e colocou-se nos degraus em frente ao altar. Pediu silêncio. A assembleia fez silêncio.
“Dentro de dois meses vou ser pai! E como tal … devo assumir as minhas responsabilidades familiares.”, rematou ele enquanto descia os três degraus em frente ao altar. Sem olhar nos olhos de ninguém, apenas olhando a enorme porta de entrada da igreja, caminhou serenamente pela passadeira vermelha.
Copyright © 2013 Pedro Toscano
Fotografia de Simon Howden
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