9 de janeiro de 2013

#11: O Último Pôr-do-Sol

Não havia ninguém. Eu estava ali sozinho. Ninguém tinha vontade de estar na praia, ao final da tarde, ouvindo as ondas do mar, naquele frio dia de inverno.

O astro-rei, lentamente, desaparecia no horizonte. Seria a última vez. É uma experiência incrível e não há palavras que possam descrever este sentimento.

É maravilhoso poder apreciar aquele espectáculo e pensar que amanhã podes voltar a ver o pôr-do-sol amanhã, e no dia seguinte. Mas desta vez é diferente. Infelizmente! Ainda tinha tanto para viver. Tantos sonhos por cumprir. Mas assim é a vida! Tudo tem um começo e um final.

À medida que o céu se enchia de tons laranja, eu tentava imaginar o que ia na cabeça das outras pessoas. Como estavam a reagir a tudo aquilo. A maioria deve estar nas suas casas. Todos reunidos à volta da mesa. Ou então sentados no sofá vendo televisão ou contando histórias. Ou fazendo amor como se fosse o último dia. Assim é a minha família. Eu não tenho mulher nem filhos. Assim será mais fácil.

Tudo termina, um dia. E quando pensas que tens tudo, rapidamente tudo desaparece. É muito difícil de entender. Eu, por momentos, pensei que poderia entender tudo aquilo e aceitar o destino. Impossível! Assim é a vida.

Pouco a pouco, o céu ia ficando mais escuro. As estrelas iam enchendo o firmamento dando um pouco mais de alegria à escuridão. Era um espectáculo maravilhoso ao qual eu assistia desde pequeno. Assustava-me não poder repetir. Assustava-me perder para sempre aquele milagre da vida. E dentro de algum tempo, não sei quanto, tudo terminaria.

Sentia-me fraco. Muito fraco. Sem forças para lutar. Mas … lutar para quê? Aquilo era inevitável! Não havia forma de mudar o destino. Sempre tinha ouvido dizer que o nosso destino somos nós que o realizamos. Mas este … este destino … este trágico destino … ninguém o pode parar. Nem o Homem, nem as máquinas. Já ninguém o pode impedir. Esta era a última página de um longo livro. Um livro com momentos alegres e momento tristes.

Deixei-me deitar na areia e fechei os olhos. Apetecia-me desfolhar o livro da minha vida. O meu primeiro dia na escola em que chorei baba e ranho. Era pequenino e não queria ficar longe da minha mãe. O meu primeiro beijo dado por engano. A rapariga estava enamorada pelo nome do meu melhor amigo e pensou que ele era eu. Grande confusão. A primeira vez que fiz amor. Jamais esquecerei aquele momento, apesar de ela me ter esquecido no dia seguinte. O dia em que nasceu o meu primeiro sobrinho. Quero-o como a um filho. Um filho que nunca vou ter. Lamento imenso e arrependo-me de algumas das decisões que tomei ao longo da minha vida. Queria muito ter tido um filho. Mas dadas as circunstâncias … era melhor assim! E todos aqueles momentos felizes passados na companhia dos meus pais. Gente honesta e trabalhadora que, sem me ter deixado bens, me deixou valores morais.

Pena que nunca mais vou poder ver o pôr-do-sol. Dentro de pouco tempo já não estarei aqui. Abri novamente os olhos e fitei o céu. Não queria partir! Desejei poder parar o tempo. Desejei poder voltar atrás no tempo. Desejei …

Dentro de pouco tudo estaria acabado. Não valia a pena desejar.

Eu sabia que estava quase. Eu sentia o fim perto. Sentia também o frio da noite. Aos poucos ia ficando gelado. Tinha pouca roupa no corpo. A minha alma também estava gelada. Tudo tinha um começo e um fim. E o meu fim estava próximo. Não aguento mais esta agonia. Morro lentamente. Não quero morrer!

Fechei novamente os olhos mas continuava a ver as estrelas. Talvez fosse melhor assim. Talvez o final fosse mais suave com os olhos fechados. Talvez …

Que raio de maneira para terminar tudo. Não me posso ir com os olhos fechados. Tenho que aproveitar e ver as maravilhas que me rodeiam. Tenho que sair dali. Com os olhos fechados parece que já chegou o meu final. Está para chegar, mas ainda não chegou! Mas vai chegar em breve …

Levantei-me. Sacudi a areia que veio agarrada à minha roupa. Ajeitei o capuz na cabeça. Coloquei as mãos nos bolsos da camisola. Vou dar um passeio. Quero assistir a tudo de olhos bem abertos. Quero ver-me cair redondo no chão e ver como tudo desaparece à minha volta. Quero que o meu último passeio seja alegre. O meu último passeio …

๑۞๑

Passeei ao longo do areal durante não sei quanto tempo. Ao longe via as luzes da aldeia. Tudo parecia tão sereno. Havia silêncio e de vez em quando o barulho da água do mar a deslizar pela areia. As saudades que vou ter de tudo aquilo …

Então, um foguete riscou o céu escuro. Subiu muito alto e rebentou iluminando a noite. E depois outro. E outro. E outro. E muitos outros se seguiram durante vários minutos. O céu tomava outras cores. A alegria interrompeu o silêncio. Tornava-se evidente que algo bom tinha acontecido.

Copyright © 2012 Pedro Toscano

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