Aquela posição tinha sido cuidadosamente escolhida. Demorei algum tempo a chegar a este ponto mas valeu a pena. Nesta posição, podia controlar todo o edifício do outro lado da rua. O edifício aonde eu sabia que ele se escondia.
Daquela posição também podia controlar quase toda a zona. Meses atrás, aquele devia ser um dos bairros mais movimentados daquela cidade. E agora estava quase deserto e em ruínas. Havia muita gente que não queria abandonar as suas casas ou que não pôde fugir. E quando as coisas acalmam é vê-los a atravessar as ruas, esquivando destroços e tiros.
Ele estava ali. Do outro lado da rua. E eu, aqui deitado, esperava-o. Na minha anterior posição, ao fim de algumas horas, tinha conseguido detectá-lo. Mas não tinha possibilidades de o alvejar.
Agora que o tinha ao meu alcance ele não se mostrava. Já aqui estou há cerca de três horas. Três horas deitado no meio dos escombros. Esperando. Esperando a que ele se denuncie. Mas ele teima em não aparecer. Resta-me esperar.
Tinha que encontrar uma maneira de o fazer sair do seu esconderijo, sem denunciar a minha posição. Assim que o encontrasse, quando ele se movesse, só necessitava de um segundo para o atingir. Com a minha mira, inspeccionava todos os buracos que havia naquele edifício. No telhado não estava pois não tinha qualquer tipo de protecção. O terceiro andar já não tinha as paredes exteriores. Levava três horas sem se mover. Ou mudou de posição ou então está à espera que apareça alguém.
Tinha que pensar em algo. Algo útil. Não podia deixar a minha mente vaguear por entre todos aqueles corpos espalhados sem vida. Não queria pensar em quantos pais não voltariam a ver os seus filhos. Quantas esposas não voltariam a abraçar os seus maridos. Quantos filhos nunca iriam conhecer o seu pai. Pensava no que fazia eu aqui no meio disto tudo.
Quando estas visões de pessimismo me invadiam o pensamento abanava a cabeça e tudo voltava ao normal. Eu tinha uma missão. Aquela era a minha profissão. E tinha que a executar o melhor possível. Não podia perder tempo em pensamentos filosóficos sobre o bem ou o mal. Tinha que ser rápido. Rápido a encontrar o meu oponente. Rápido a eliminá-lo. Ele era apenas um objectivo. Era apenas mais uma missão!
Tinha que fazê-lo por mim também. Para muitos, eu já estava arrumado. Aquele ferimento recebido no pé impedia-me correr. Tinha que me deslocar mais lentamente. Mas continuava a ser capaz de executar a minha missão. Depois daquela troca de fogo, fui evacuado para o hospital de campanha. Após quatro semanas de internamento e muitas horas de recuperação, fui dispensado por motivos físicos. Quiseram fazer de mim um incapaz. Consegui um trabalho. Vigilante durante a noite, frequentador de bares durante o dia. Aquilo não era para mim. Isto sim. Foi para isto que me treinei durante vários anos. Era nisto que eu me sentia realizado.
Havia movimento na rua! Pela mira telescópica vejo três soldados tentando alcançar o outro lado da rua. Lentamente foram cruzando por entre os destroços e os escombros. Tinha-os ao alcance. Deixo-os passar. Eu sabia exactamente qual era o meu objectivo. Não me podia denunciar. Eles vão em direcção contrária à minha posição. Não representam perigo. Um bom sniper é capaz de atingir três alvos sem ser detectado. Mas neste caso, há mais alguém à espreita. Esperando a sua oportunidade.
Aqueles pobres coitados tiveram sorte … desta vez! Pode ser que consigam chegar vivos ao final disto tudo. E que possam voltar para a família. A família que já não tenho. Sinto falta das palavras de carinho do meu velhote. E do conforto que me dava quando eu chegava a casa depois de uma comissão. A forma como me abraçava. Ele também foi um combatente. Conhecia bem toda esta merda. Matar para não morrer. Cumprir uma missão até ao fim. Por isso, sempre que eu regressava, ele levava-me em grandes viagens pelo país. Tentava dar-me outros objectivos pelos quais viver. Mas a guerra transforma uma pessoa e depois da primeira morte já não somos os mesmos. Nunca mais. A guerra faz-nos ver coisas que ninguém consegue imaginar.
Lembro-me de, uma vez, o meu velhote me perguntar qual era a sensação de matar alguém a uma distância tão grande. Respondi-lhe que, poder matar alguém sem saberem que eu estava ali, me dava uma sensação de poder. Ele viu como brilhavam os meus olhos. Foi aí que ele percebeu que a guerra e a morte já me roíam as entranhas. A morte já vivia dentro de mim. Eu sabia que ele também tinha matado em combate. Mas nunca me contou nada. Nem eu lhe perguntei.
A mais difícil é a primeira! Ao princípio pensava que deveria sentir pena de todos aqueles que matava, mas deixei de pensar nisso. Este é o meu trabalho. Todos os que matei … mereceram morrer. Todas as que se seguiram já não afectaram tanto. Agora já não me importa! Há quem consiga viver com isso presente na memória. Muitos não aguentam. A guerra é uma merda quando deixamos que o nosso lado sensível seja mais forte.
Ainda me lembro da minha primeira morte. Numa cidade ao norte do país. Eu estava no telhado de uma casa quando o tiroteio começou. Naquela posição eu tinha boa visibilidade sobre aquela zona da cidade. Havia muita movimentação naquelas ruas à volta. Foi quando vi um deles. Estava a cerca de quatrocentos metros e trazia um RPG. Estava a preparar-se para disparar sobre a nossa posição. No meio daquela confusão, consegui acalmar-me, ajustar a mira, consegui uma posição estável, controlei a respiração e apertei o gatilho. Acertei-lhe no peito e caiu para trás. A minha primeira morte!
Pelo canto do olho, olhei para o relógio. O tempo passava lentamente. Sabia, mais ou menos, onde ele poderia estar escondido. Mas ele não aparecia. Talvez, procurando outra posição, o conseguisse ver. Eu estava no terceiro andar de um prédio completamente arruinado. Traçando uma diagonal, do outro lado da rua, estava o prédio onde ele se escondida. No andar onde me encontrava, metade da parede tinha caído e, sem saber a localização dele, era uma posição arriscada. Decidi permanecer no mesmo sítio.
Um disparo!
Tinha que encontrar o atirador. Através da mira telescópica, fui vasculhando cada abertura, cada janela, cada andar. Ele tinha que estar ali. Eu tinha que o encontrar.
Tinha que me acalmar. Deveria controlar a respiração. Um tiro, uma morte! Um tiro, uma morte! Lentamente fui explorando cada abertura. Eu sabia que ele estava ali. A minha respiração estava cada vez mais lenta. O meu corpo estava relaxado. O tiro tinha que sair entre cada batimento do coração. E eu sentia cada batimento. Um atrás do outro. Respirava lentamente. Já tinha tirado a folga ao gatilho. Estava pronto a disparar. Quando surgisse a oportunidade, só tinha que enviar aquela munição ao seu destino. Um tiro, uma morte! Não havia outra maneira. Tinha a cabeça livre de qualquer pensamento que me pudesse distrair. Ele tinha tomado a iniciativa. Só faltava encontrar aquele tipo. Janela após janela. Cada monte de escombros era um possível esconderijo. Já vou no terceiro andar. Respirar lentamente. Sentir o bater do coração. Janela após janela. Ele tinha que estar ali. Cada vez respiro com mais calma. Sinto cada batimento do meu coração. Sinto-o bater cada vez com mais força. O disparo tem que sair entre cada batimento do coração.
Foda-se! Ali está ele! Encontrei-o! E ele … encontrou-me a mim! Não havia tempo a perder. Apertei o gatilho! A munição saiu da minha arma em direcção ao outro lado da rua. Instantes depois, senti um zumbido a passar por mim. O filho da puta também conseguiu disparar. Olhei pela mira telescópica. Havia poeira no ar. Acalmar-me. Respirar com calma. Sentir o coração. Respirar com calma. Abrir bem os olhos. Acalma-te. A poeira está a baixar. Preparado para disparar. Respiração controlada.
A arma estava no chão. Não estava em posição de disparo. Tinha-lhe acertado. Só podia ser isso. Olhei para o lado que já não tinha parede. Dali tinha melhor campo de visão. Levantei-me rapidamente e peguei na arma. Procurei a protecção de um monte de escombros, por precaução. Apontei na direcção onde estava o atirador. A arma continuava na mesma posição. É um bom sinal. Já não havia poeira no ar. Ele tinha que estar ali algures. De preferência morto. Sim, sim, sim … estava ali!
Ele estava morto. E eu não sentia remorsos. Todos os que matei … mereceram morrer! Este foi o quarto, esta semana.
Arrumei as minhas coisas. Tinha terminado a minha missão. Esperavam-me noutro lugar.
Daquela posição também podia controlar quase toda a zona. Meses atrás, aquele devia ser um dos bairros mais movimentados daquela cidade. E agora estava quase deserto e em ruínas. Havia muita gente que não queria abandonar as suas casas ou que não pôde fugir. E quando as coisas acalmam é vê-los a atravessar as ruas, esquivando destroços e tiros.
Ele estava ali. Do outro lado da rua. E eu, aqui deitado, esperava-o. Na minha anterior posição, ao fim de algumas horas, tinha conseguido detectá-lo. Mas não tinha possibilidades de o alvejar.
Agora que o tinha ao meu alcance ele não se mostrava. Já aqui estou há cerca de três horas. Três horas deitado no meio dos escombros. Esperando. Esperando a que ele se denuncie. Mas ele teima em não aparecer. Resta-me esperar.
Tinha que encontrar uma maneira de o fazer sair do seu esconderijo, sem denunciar a minha posição. Assim que o encontrasse, quando ele se movesse, só necessitava de um segundo para o atingir. Com a minha mira, inspeccionava todos os buracos que havia naquele edifício. No telhado não estava pois não tinha qualquer tipo de protecção. O terceiro andar já não tinha as paredes exteriores. Levava três horas sem se mover. Ou mudou de posição ou então está à espera que apareça alguém.
Tinha que pensar em algo. Algo útil. Não podia deixar a minha mente vaguear por entre todos aqueles corpos espalhados sem vida. Não queria pensar em quantos pais não voltariam a ver os seus filhos. Quantas esposas não voltariam a abraçar os seus maridos. Quantos filhos nunca iriam conhecer o seu pai. Pensava no que fazia eu aqui no meio disto tudo.
Quando estas visões de pessimismo me invadiam o pensamento abanava a cabeça e tudo voltava ao normal. Eu tinha uma missão. Aquela era a minha profissão. E tinha que a executar o melhor possível. Não podia perder tempo em pensamentos filosóficos sobre o bem ou o mal. Tinha que ser rápido. Rápido a encontrar o meu oponente. Rápido a eliminá-lo. Ele era apenas um objectivo. Era apenas mais uma missão!
Tinha que fazê-lo por mim também. Para muitos, eu já estava arrumado. Aquele ferimento recebido no pé impedia-me correr. Tinha que me deslocar mais lentamente. Mas continuava a ser capaz de executar a minha missão. Depois daquela troca de fogo, fui evacuado para o hospital de campanha. Após quatro semanas de internamento e muitas horas de recuperação, fui dispensado por motivos físicos. Quiseram fazer de mim um incapaz. Consegui um trabalho. Vigilante durante a noite, frequentador de bares durante o dia. Aquilo não era para mim. Isto sim. Foi para isto que me treinei durante vários anos. Era nisto que eu me sentia realizado.
Havia movimento na rua! Pela mira telescópica vejo três soldados tentando alcançar o outro lado da rua. Lentamente foram cruzando por entre os destroços e os escombros. Tinha-os ao alcance. Deixo-os passar. Eu sabia exactamente qual era o meu objectivo. Não me podia denunciar. Eles vão em direcção contrária à minha posição. Não representam perigo. Um bom sniper é capaz de atingir três alvos sem ser detectado. Mas neste caso, há mais alguém à espreita. Esperando a sua oportunidade.
Aqueles pobres coitados tiveram sorte … desta vez! Pode ser que consigam chegar vivos ao final disto tudo. E que possam voltar para a família. A família que já não tenho. Sinto falta das palavras de carinho do meu velhote. E do conforto que me dava quando eu chegava a casa depois de uma comissão. A forma como me abraçava. Ele também foi um combatente. Conhecia bem toda esta merda. Matar para não morrer. Cumprir uma missão até ao fim. Por isso, sempre que eu regressava, ele levava-me em grandes viagens pelo país. Tentava dar-me outros objectivos pelos quais viver. Mas a guerra transforma uma pessoa e depois da primeira morte já não somos os mesmos. Nunca mais. A guerra faz-nos ver coisas que ninguém consegue imaginar.
Lembro-me de, uma vez, o meu velhote me perguntar qual era a sensação de matar alguém a uma distância tão grande. Respondi-lhe que, poder matar alguém sem saberem que eu estava ali, me dava uma sensação de poder. Ele viu como brilhavam os meus olhos. Foi aí que ele percebeu que a guerra e a morte já me roíam as entranhas. A morte já vivia dentro de mim. Eu sabia que ele também tinha matado em combate. Mas nunca me contou nada. Nem eu lhe perguntei.
A mais difícil é a primeira! Ao princípio pensava que deveria sentir pena de todos aqueles que matava, mas deixei de pensar nisso. Este é o meu trabalho. Todos os que matei … mereceram morrer. Todas as que se seguiram já não afectaram tanto. Agora já não me importa! Há quem consiga viver com isso presente na memória. Muitos não aguentam. A guerra é uma merda quando deixamos que o nosso lado sensível seja mais forte.
Ainda me lembro da minha primeira morte. Numa cidade ao norte do país. Eu estava no telhado de uma casa quando o tiroteio começou. Naquela posição eu tinha boa visibilidade sobre aquela zona da cidade. Havia muita movimentação naquelas ruas à volta. Foi quando vi um deles. Estava a cerca de quatrocentos metros e trazia um RPG. Estava a preparar-se para disparar sobre a nossa posição. No meio daquela confusão, consegui acalmar-me, ajustar a mira, consegui uma posição estável, controlei a respiração e apertei o gatilho. Acertei-lhe no peito e caiu para trás. A minha primeira morte!
Pelo canto do olho, olhei para o relógio. O tempo passava lentamente. Sabia, mais ou menos, onde ele poderia estar escondido. Mas ele não aparecia. Talvez, procurando outra posição, o conseguisse ver. Eu estava no terceiro andar de um prédio completamente arruinado. Traçando uma diagonal, do outro lado da rua, estava o prédio onde ele se escondida. No andar onde me encontrava, metade da parede tinha caído e, sem saber a localização dele, era uma posição arriscada. Decidi permanecer no mesmo sítio.
Um disparo!
Tinha que encontrar o atirador. Através da mira telescópica, fui vasculhando cada abertura, cada janela, cada andar. Ele tinha que estar ali. Eu tinha que o encontrar.
Tinha que me acalmar. Deveria controlar a respiração. Um tiro, uma morte! Um tiro, uma morte! Lentamente fui explorando cada abertura. Eu sabia que ele estava ali. A minha respiração estava cada vez mais lenta. O meu corpo estava relaxado. O tiro tinha que sair entre cada batimento do coração. E eu sentia cada batimento. Um atrás do outro. Respirava lentamente. Já tinha tirado a folga ao gatilho. Estava pronto a disparar. Quando surgisse a oportunidade, só tinha que enviar aquela munição ao seu destino. Um tiro, uma morte! Não havia outra maneira. Tinha a cabeça livre de qualquer pensamento que me pudesse distrair. Ele tinha tomado a iniciativa. Só faltava encontrar aquele tipo. Janela após janela. Cada monte de escombros era um possível esconderijo. Já vou no terceiro andar. Respirar lentamente. Sentir o bater do coração. Janela após janela. Ele tinha que estar ali. Cada vez respiro com mais calma. Sinto cada batimento do meu coração. Sinto-o bater cada vez com mais força. O disparo tem que sair entre cada batimento do coração.
Foda-se! Ali está ele! Encontrei-o! E ele … encontrou-me a mim! Não havia tempo a perder. Apertei o gatilho! A munição saiu da minha arma em direcção ao outro lado da rua. Instantes depois, senti um zumbido a passar por mim. O filho da puta também conseguiu disparar. Olhei pela mira telescópica. Havia poeira no ar. Acalmar-me. Respirar com calma. Sentir o coração. Respirar com calma. Abrir bem os olhos. Acalma-te. A poeira está a baixar. Preparado para disparar. Respiração controlada.
A arma estava no chão. Não estava em posição de disparo. Tinha-lhe acertado. Só podia ser isso. Olhei para o lado que já não tinha parede. Dali tinha melhor campo de visão. Levantei-me rapidamente e peguei na arma. Procurei a protecção de um monte de escombros, por precaução. Apontei na direcção onde estava o atirador. A arma continuava na mesma posição. É um bom sinal. Já não havia poeira no ar. Ele tinha que estar ali algures. De preferência morto. Sim, sim, sim … estava ali!
Ele estava morto. E eu não sentia remorsos. Todos os que matei … mereceram morrer! Este foi o quarto, esta semana.
Arrumei as minhas coisas. Tinha terminado a minha missão. Esperavam-me noutro lugar.
Copyright © 2012 Pedro Toscano
Fotografia de worradmu
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