O senhor Reis era militar. Era da idade do meu pai. E sempre foi meu vizinho. Quando saí de casa para ir para o colégio, vi-o à janela. Cumprimentei-o mas ele não me disse nada. Já ninguém o via na rua. Há muito tempo.
Numa missão num país muito longe, uma mina rebentou quando o veículo onde ia passava por uma pequena ponte. Isto foi o que o meu pai me contou.
O senhor Reis não tem filhos. Por isso costumava brincar muito comigo. Depois do acidente, a sua mulher foi-se embora de casa. A minha mãe disse que ela era uma mulher muito má. Por ter abandonado o marido quando ele mais necessitava. Parece que uma vez, ela disse à minha mãe que mais valia o marido ter morrido. Eu sempre gostei dele. E nunca gostei dela. Não era simpática.
No fim das aulas, sempre venho no autocarro do colégio. E sempre saio na paragem à entrada do bairro. Depois vamos todos pelo jardim até casa. O Marcos, que também é meu vizinho, acompanha-me até casa.
Hoje a viagem tinha demorado mais tempo que o normal. Havia um acidente. Vimos dois carros que tinham chocado um contra o outro. Havia ambulâncias. E estavam os bombeiros ainda a apagar o que restava do fogo que tinha queimado um dos carros. E havia muita gente a ver tudo aquilo. A monitora que nos acompanha no autocarro disse-nos para olharmos para o outro lado. Mas eu espreitei pela janela.
A melhor recordação que tenho do senhor Reis foi na minha festa de anos quando fiz oito anos. Ele deu-me uma bicicleta. E durante uma semana, todos os dias ia comigo para me ensinar. Naquela altura o meu pai passava pouco tempo em casa. Ele também é militar e estava muito longe de casa. O senhor Reis era quase como um pai substituto. Só não ia aconchegar-me a roupa da cama à noite e não me ajudava com os deveres da escola. Sempre tinha tempo para ir brincar comigo. E a minha mãe não dizia nada porque eram amigos. Ele e o meu pai estiveram juntos em muitos sítios.
Quando consegui espreitar pela janela, vi uma pessoa, num dos carros. Devia estar morta. Tinha um braço e a cabeça caídos para fora do carro. Não se mexeu durante o tempo em que espreitei. De certeza que estava mesmo morta. Espero não ter pesadelos.
Eu e o Marcos estávamos quase a chegar a casa. Olhei para o jardim do senhor Reis. Ele tinha saído de casa. Finalmente. O Marcos não reagiu mas eu saí a correr. Olhando por cima do muro apenas podia ver-lhe o pescoço e a cara.
“Senhor Reis! Senhor Reis”, gritava eu para lhe chamar à atenção. Mas ele não olhava.
O portão estava mesmo ali. Eu gritava e acenava-lhe. Mas o senhor Reis não olhava. Se ele tinha saído à rua era porque já estava bom. Já podia ir brincar comigo. Já podíamos ir andar de bicicleta. Já tinha alguém com quem jogar à bola. Eu estava muito contente. Estava quase, quase, quase a chegar ao portão. Havia mais alguém com ele. Eu não a conhecia. E pelo que podia ver, estava vestida toda de branco. Que estranho! Nunca tinha visto ninguém em casa do senhor Reis.
Eu tentava correr mais rápido mas a mochila carregada de livros não me deixava. Mas não a podia deixar no meio do caminho. E o Marcos tinha ficado lá atrás. Eu fiz aquela subida sempre a correr. Ele detestava correr.
Mas o portão já estava ali. Estava a chegar. Deixei cair a mochila e abri o portão. Voltei para trás e fui buscar a mochila. Entrei e o portão fechou-se atrás de mim.
Quando olhei, lá estava ele. Sentado numa cadeira com rodas. Aquela senhora estava a dar-lhe uma bebida. O senhor Reis bebia por uma palhinha. Ela fez-me sinal para vir devagarinho, para não correr. O senhor Reis olhava não sei para onde. Não mexia a cabeça. Nem as pernas. Tinha uma manta verde a cobri-lhe as pernas.
Quando cheguei ao pé dele, ele não me olhou. Nem me cumprimentou. Foi então que percebi o que tinha acontecido ao senhor Reis. A minha mãe disse-me que tinha sido um acidente grave. E estava a chorar quando me contou algumas coisas. O meu pai também estava a chorar. Lembro-me de a minha mãe ter dito que tinha medo. Acho que ela tinha medo que acontecesse a mesma coisa ao meu pai.
Quando cheguei a casa, contei à minha mãe que tinha estado com o senhor Reis. Eu estava triste. Ela abraçou-me e deu-me muitos mimos. E limpou-me as lágrimas.
Nunca mais andei de bicicleta com o senhor Reis. E nunca mais jogámos à bola no campo do bairro.
Quando estava ao lado do senhor Reis, a senhora que estava com ele mostrou-me que o senhor Reis já não tinha pernas e tinha ficado sem um braço.
Copyright © 2013 Pedro Toscano
Fotografia de worradmu
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