7 de janeiro de 2013

#10: O Meu Amor Por Ti

Tomás olhou para o céu. Havia umas quantas nuvens escuras que teimavam ocultar o sol. Ele esperava. E já estava cansado de esperar. Ele sabia que algo ia acontecer!

Sempre foi despreocupado, mas aquele assunto trazia-o acorrentado! Ele sabia que não havia outra solução. Tinha que esperar. Uma espera que o agonizava. Estar ali no seu pequeno escritório sentindo-se um prisioneiro. Estava sentado no parapeito da janela, com os joelhos encostados ao peito e as mãos abraçando as pernas e tocando os pés descalços.

Olhou para o relógio. Ainda faltava algum tempo. Decidiu esperar um pouco mais. Olhou novamente o céu. Aqui e ali, o sol tentava lançar os seus raios.

O dia tinha começado suave. Corria uma ligeira brisa. Mas aquelas nuvens escuras eram um presságio de que poderia vir chuva. Mas não era a chuva que o preocupava. A chuva era um mal menor, comparado com o que estava para vir. Olhou para o relógio. Era hora de sair. Desceu do parapeito da janela. Calçou os sapatos e arrumou o livro que esteve a folhear. Deixou a secretária arrumada. Não é que isso fosse algo que o preocupasse, mas não queria deixar o escritório desarrumado.

Tomás saiu a correr. Desceu as escadas em lanços de três degraus. Tinha que chegar o mais rápido possível. Queria estar com ela. Era o mais importante que tinha na sua vida.

Quando chegou à porta de entrada do prédio ainda hesitou um par de segundos. Estava indeciso. Ir buscar o carro e perder tempo no trânsito ou ir a correr. Parou. Olhou para os pés. Calçava os seus melhores sapatos. E vestia o seu melhor fato.

Empurrou a porta e saiu disparado a correr. Felizmente não entrava ninguém. Desceu os cinco degraus de um salto. Quando os seus pés tocaram chão, numa manobra perfeita, desatou a correr rua fora.

A última vez que olhara para o relógio ainda faltava cerca de meia hora. Dava tempo para ir ter com a Marta. Enquanto corria rua fora, apenas uma dúvida lhe ocupava a mente. Nada mais o preocupava. Atormentava-o a necessidade de encontrar, ali no meio da cidade, um local idílico onde pudesse estar com a Marta.

À medida que corria, ia fazendo um mapa mental do percurso. Uns metros mais à frente tinha que virar à direita, contornar o edifício, seguir sempre a direito, atravessar a rua e chegava ao jardim do coreto.

Aproximava-se do cruzamento. Já se sentia cansado. Há muitos anos que não praticava nenhum tipo de desporto. E agora notava-se. Mas não podia parar. Preparou-se para dar a curva. Não podia parar. Quando passou pela paragem de autocarros, de relance, olhou o relógio e viu que faltavam vinte minutos. Dava tempo para ir buscar a Marta, mas não podia fraquejar. Tinha tudo controlado e, até agora, estava tudo a correr bem.

- Cuidado! - alguém lhe gritou.

Demasiado tarde! Ao fazer a curva deu de frente com uma senhora de meia-idade empurrando um senhor de idade numa cadeira de rodas. Foi impossível evitar o choque. A queda foi amortecida pela cadeira de rodas mas ambos terminaram no chão. Tratou de levantar-se o mais rapidamente possível. A senhora de meia-idade gritava. Todos os que passavam por ali pararam a observar o sucedido. Mas ninguém ajudava. Todos olhavam e não faziam nada. A senhora gritava. O senhor de idade caído no meio da rua apenas balbuciava palavras que ninguém entendia.

- Por amor de Deus! Olhe o que fez! - berrou-lhe a senhora de meia-idade.

Num último esforço, Tomás levantou o senhor do chão e sentou-o na cadeira. Colocou-lhe a manta sobre as pernas. Depois, colocou-lhe a sua mão sobre as pernas.

- Peço-lhe imensa desculpa, senhor! - disse dando-lhe um suave aperto nas mãos resguardadas pela manta. O senhor respondeu-lhe balbuciando umas palavras que não pôde entender.

Quando se levantou, olhou ternamente para aquele senhor sentado na cadeira de rodas. Sentiu pena pelo sucedido. Mas não podia perder mais tempo. Olhou para o relógio e já só tinha dez minutos. Deu uma última vista de olhos para se certificar que já estava tudo bem. Sim … já estava tudo como antes! Já se podia ir embora.

Mas antes havia uma última coisa. Algo que odiava.

- Deus … não existe! Não existe!!! - berrou Tomás apontando o dedo indicador na direcção da senhora de meia-idade. - Nunca existiu! Nunca!!!

Agora já estava mais contente. Tinha coisas mais importantes que fazer e não podia perder mais tempo. Desatou a correr e desapareceu entre a multidão que se tinha aglomerado à volta deles. E nem reparou no ar que alguns colocaram quando mencionou que Deus não existia. «Que se lixem! Que se lixem eles e o seu deus!»

Há muito tempo que deixou de acreditar em Deus! E a religião não lhe dizia nada. Mas isso desde os tempos de infância. Nunca compreendeu como era possível alguém acreditar em algo sem pensar. E odiava ir à missa! E odiava a catequese! Para ele uma das coisas mais ridículas foi quando lhe disseram que uma serpente tinha falado com a Eva … ou algo parecido! E quando perguntou se era verdade disseram-lhe que na realidade não era uma serpente, era o diabo.  Mas aquilo não lhe parecia real e quando ia fazer outra pergunta levou com um «Cala-te imediatamente!». A partir daquele dia, toda aquela parafernália de deus, santos, menino jesus, padres e igreja deixou de fazer sentido na sua vida.

Já só faltava atravessar a rua. Do outro lado já ali estava o parque. O semáforo estava vermelho para os peões mas, olhando para um lado e para o outro e vendo que não circulava nenhum veículo, atravessou a correr. Tinha o coração a bater cada vez mais forte. Quase saltava do seu peito.

Já estava no parque. Havia pouca gente passeado por ali. Ainda bem! Olhou para o relógio. Faltavam pouco mais de cinco minutos e a porra do parque era comprido. A situação exigia um último esforço. O suor escorria pela cara. E ele limpava-o com a manga do casaco. E logo outra e outra teimavam em escorrer. Já não aguentava as pernas. Respiração ofegante. O coração parecia querer abandonar o seu corpo. Limpar o suor. Olhar para o relógio. O coração a bater cada vez mais forte. As pernas que já não aguentam. Os pés que correm sozinhos porque o resto do corpo já não obedece à cabeça. Limpar o suor. Respiração ainda mais ofegante. E o final do parque que já estava à vista.

«Está quase!» pensava ele, «Está quase!» e sem saber de onde, uma força suplementar entrou-lhe pelo corpo e desatou a correr ainda mais rápido. Já não sentia qualquer dor. Esquecera as dores e a fadiga. Só tinha que atravessar uma última rua e encontrar a Marta. Mas o corpo cada vez se sentia mais pesado. O coração deveria ir a mil à hora. E respirava com dificuldade.

A rua estava já ali. E o edifício cor-de-rosa já estava à vista. Olhou para o relógio. Ia conseguir chegar a tempo. Deixou passar um carro. Mas já lá vinha outro. Não atravessou. Tinha tempo. Agora já não necessitava correr mais. Esperou durante uns segundos e atravessou a rua.

Tocou à campainha.

E tocou outra vez. Ninguém respondeu.

Tomás começou a ficar impaciente. Tocou outra vez.

Agora sim. Alguém, desde o interior do edifício, abriu a porta. Entrou rapidamente. Esperava-o uma jovem vestindo uma bata com finas riscas verticais brancas e vermelhas. Tomás não lhe ligou nenhuma e começou a correr ao longo do corredor.

Era um longo corredor com várias portas em cada lado. Tomás só parou na penúltima. Não aguentava mais. E agora tinha a companhia de várias pessoas que tinham saído das suas salas. A algazarra era tanta que era impossível não se dar conta. Tomás só conseguia fazer sinais com as mãos para dizer que estava tudo bem. Olhou para o relógio. Respirou fundo.

- Só quero estar com a Marta! - disse ele com bastante dificuldade, abrindo a porta da sala seis.

Ainda faltavam uns segundos.

๑۞๑

O relógio da sala marca onze horas e onze minutos. Há um enorme silêncio na sala. Tudo continua de pé. Passado o susto, as crianças voltam a brincar e a gritar.

Lá fora o céu já não está tão cinzento.

O mundo não acabou!


Copyright © 2012 Pedro Toscano

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