23 de janeiro de 2013

#30: A Viúva

Era sexta-feira. O relógio marca as 22:15.

Este último mês tem sido insuportável. Ando cansado. Triste. Revoltado. Insatisfeito. Atirei-me para o sofá e tentei dormir. Não me apetecia sair. Não tinha vontade de ver ninguém.

Tento descansar mas não consigo dormir. A casa está fria. Ergui-me do sofá e vi que tinha deixado a janela aberta. Levantei-me e aproximei-me da janela. O ar frio abriu-me o apetite. Necessitava beber algo forte.

Foi quando me lembrei que tinha combinado ir ao Fred. Fechei a janela. Agarrei na carteira e dirigi-me à porta. Vou sair.

O Fred era um bom amigo. Não sendo muito popular, encontrava-me sempre rodeado por gente conhecida. Mas poucos eram amigos de verdade como o Fred. Era com ele que eu passava algumas das minhas noites desde que me mudei para este bairro.

Saí de casa fechando a porta atrás de mim. Nem me dei ao trabalho de fechar a porta à chave. Desci pelas escadas. Cruzei-me com a Francisca, uma senhora adorável de meia-idade.

“Boa noite. Aonde é que o menino vai a estas horas?”, perguntou ela

Parei para a cumprimentar.

“Vou dar um passeio, dona Francisca!”, disse-lhe sorrindo.

Ela olhou-me dos pés à cabeça com um olhar maternal e sorriu.

“Tem cuidado filho. Não venhas tarde!”

Desejei-lhe uma boa noite e continuei a descer as escadas. Morava no segundo andar e aquele exercício quatro vezes ao dia ajudava-me a manter a forma.

Estava uma noite bastante fria. E eu com roupa a menos. Por sorte o bar do Fred ficava nas traseiras do meu prédio. Pelo caminho, tentei pensar em várias coisas. Algo que desviasse a minha atenção daquele maldito assunto. Não me saem da cabeça as vezes sem conta que lhe perguntei o que se passava. Ouvia sempre a mesma resposta. «Não se passa nada!», dizia ela. Mas eu sabia que havia alguma coisa. Eu conhecia-a muito bem. Melhor do que ela pensava, creio. Ela era tudo para mim. Disse-lhe muitas vezes que a amava. E sentia o que dizia. Ela era uma mulher deslumbrante. E muito vaidosa. Era a mulher dos meus sonhos. Fechava os olhos e lembrava-me de cada detalhe do seu corpo escultural. O seu sorriso encantava-me. Apenas restam as lembranças. As malditas lembranças que me atormentam. O passado que me persegue.

oo0oo

Uma mulher entrou no bar e de imediato um aroma doce encheu o ar. Vinha elegante. Uns jeans azuis justinhos. Umas botas de cano alto até ao joelho. Um casaco negro de pelo na gola. Era uma mulher que não passava desapercebida. Vinha com o cabelo solto.

Como as mesas estavam todas ocupadas, optou por sentar-se ao balcão. Havia apenas um cliente sentado na outra ponta. Bebia whisky.

Pouco tempo depois, entrou outra mulher. Sentou-se ao lado da que tinha entrado instantes antes.

“Já chegaste há muito tempo?”, perguntou a recém chegada.

“Não. Também acabo de chegar.”, respondeu a outra.

A recém-chegada olhou para a outra ponta do balcão e cumprimentou o homem que ali se encontrava. O bar estava meio mergulhado na escuridão mas podia-se distinguir bem os rostos. Deu uma vista de olhos pelo bar mas não conhecia mais ninguém.

"Disseste que querias falar comigo! Passa-se algo? Queres ajuda em alguma coisa?” perguntou a morena que chegou primeiro. Em seguida levou o copo à boca deixando-o vazio.

"Sim, preciso falar contigo. Coisas do passado.”, respondeu a loura.

“Podíamos ter ido conversar para outro lugar.", disse a morena enquanto agarrava a sua carteira. Remexeu e remexeu até encontrar o que pretendia. Abriu a cigarreira e retirou um cigarro. Pousou-o no balcão. Remexeu um pouco mais e tirou um isqueiro. Retirou um pequeno estojo de maquilhagem e observou-se ao espelho. "Meus Deus! Pareço um espantalho! Porcaria de vento!", comentou enquanto se penteava com os dedos.

A morena parecia saída de uma revista de moda. Andava sempre elegante. Com um sorriso malicioso, despiu, com elegância, o seu casaco preto colocando-o cuidadosamente nas costas do banco que estava ao lado. Depois, estendeu-lhe a cigarreira à amiga.

"Obrigado! Eu já não fumo.", respondeu a loura.

A morena, que ainda não tinha parado de olhar para o espelho tentando colocar em ordem os seus longos cabelos negros, parou e olhou-a fixamente.

"O quê? Desde quando?"

"Três semanas!” respondeu a loura enquanto passava a mão pelo cabelo “Ultimamente andavas tão ocupada que nem davas conta do que se passava à tua volta”

“Por algum motivo em especial?” perguntou a morena chamando o barman.

O Fred dirigiu-se de imediato para a outra ponta do bar. O outro cliente ficou sozinho.

"Bacardi lemon. E não te esqueças do sumo de limão." pediu a morena. Fred abanou a cabeça e afastou-se para ir preparar a bebida. "O que queres beber, Marta?" perguntou ela.

Marta brincava com o fio que trazia ao pescoço. Um fio de prata com uma pequena medalha.

"Água" respondeu.

“Posso pagar-te uma bebida decente?”, perguntou Cristina.

Marta, abanou a cabeça de forma negativa, enquanto olhava para o seu telemóvel colocado em cima do balcão. Notava-se um aumentar dos traços de tristeza na sua cara.

“Eu descobri que o Filipe andava com outra!”, lançou Marta.

Cristina ficou perplexa ao ouvir aquilo.

“De certeza?”, perguntou a loura.

“Sim! Descobri um pequeno bilhete no bolso das calças. Na altura pensei que fosse algum compromisso de trabalho ou alguma brincadeira de uma colega de trabalho.”, comentou ela levando a pequena garrafa de água à boca. “Mas depois comecei a notar os telefonemas e as mensagens fora do horário de trabalho. À noite já não me procurava. Deitava-se e adormecia.”, confessou Marta com amargura “Sei que durou apenas umas semanas, mas aconteceu e isso não se pode apagar da memória.”

Fez-se silêncio entre elas.

“E sabes quem era?”, perguntou Cristina intrigada.

“Sim!”, respondeu Marta

“Mas tens a certeza do que estás a dizer, Marta?” perguntou Cristina. “Tens a certeza de que se passou alguma coisa entre eles? Podia ser só conversa!”, acrescentou.

Marta não lhe respondeu. Fez sinal a Fred e pediu-lhe outra garrafa de água. Fred veio de imediato. Trazia outra garrafa de água.

“E achas que vale a pena andar a remexer no passado?”, perguntou-lhe Cristina.

“Ás vezes apetece-me deixar tudo como está.”, respondeu Marta. “Mas depois pergunto-me como posso deixar isto para trás se o meu marido andava metido com a minha melhor amiga.”, rematou a morena.

oo0oo

Já era de dia. O sol já espreitava à janela do quarto. A noite de ontem tinha sido horrível. Mas ao mesmo tempo libertadora. Todos os fantasmas que assombravam a minha vida tinham desaparecido.

Olhei para o telemóvel. Nove da manhã. Apetecia-me ir passear. Vesti o fato de treino e calcei as sapatilhas.

Tinha dito que não pensaria mais nos últimos acontecimentos. Num acidente, tinha perdido um amigo. A mulher do meu amigo tinha descoberto que ele tinha uma amante. Eu tinha perdido a minha mulher. A minha mulher era a amante do meu amigo.

Chega de pensar no que aconteceu.

Copyright © 2013 Pedro Toscano

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