Estava uma agradável tarde de sol. E fazia calor. João não tinha vontade de estar em casa. Não gostava nem da solidão, nem do silêncio do seu apartamento.
Decidiu sair à rua. Não era homem para estar no café. Nunca gostou de beber. E não podia jogar às cartas. Foi coisa que nunca lhe despertou a curiosidade. Nas suas calmas foi até ao parque infantil do outro lado da rua. Era o único lugar, naquela cidade, onde se sentia contente. Ali podia sentir a alegria de todos aqueles meninos e meninas. Adorava todas aquelas crianças. E elas adoravam-no a ele. Sempre que havia meninos novos no bairro, um deles tratava de os apresentar ao João. Todas aquelas crianças o conheciam com o João das Cautelas.
Esse era o seu trabalho. Vendia todo o tipo de lotarias. A sua função era distribuir a sorte. E ele já tinha sentido essa alegria. Já tinha vendido algumas lotarias premiadas. E também sentiu a alegria de repartirem com ele essa sorte.
Um desses afortunados levava anos prometendo-lhe uma casa nova. Foi assim que conseguiu aquele apartamento. E o João sentia-se feliz por ter uma casa nova. Aquele vizinho mobilou todo o apartamento. Comprou-lhe vários electrodomésticos. E a esposa ensinou-o a cozinhar. É certo que não podia preparar grandes refeições mas, pelo menos, já não passava fome. Sim, o João chegou a passar fome!
Graças ao casal Saraiva, o João era um homem novo. Apesar dos seus quarenta e cinco anos. Mas não esquecia a Dona Ermelinda, a viúva do segundo andar que, duas vezes por semana vinha fazer a limpeza, lavar a roupa e passar a ferro. E o casal da porta ao lado que lhe fazia as compras sempre que necessitava de algo.
O João era um homem quase feliz!
«Hoje o parque está cheio.», pensou o João sentando-se no seu banco. O banco onde sempre se senta quando vai ao parque.
Naquela tarde de domingo, todas as crianças tinham saído para brincar no parque. Reconhece-as quase todas pela voz. E sempre que alguma delas se acerca para falar com ele, sempre tem um carinho para lhe dar. E um rebuçado ou um caramelo. Sempre que vai ao parque leva sempre os bolsos cheios para distribuir pela criançada. Ele também foi criança e adorava receber caramelos. Mesmo daqueles caramelos de café que ficavam agarrados aos dentes.
As horas passaram e quando o seu relógio tocou, o João soube que tinha chegado a hora de ir para casa. Ia contente. De bolsos vazios. Tinha distribuído todos os rebuçados. Tinha recebido o carinho de todos eles. Tinha passado uma excelente tarde na companhia de todos aqueles amiguinhos de palmo e meio.
No caminho de regresso a casa, o João das Cautelas, lembrou-se de uma coisa. Uma coisa tão divertida que o fez soltar uma gargalhada. «Hoje nenhum deles me perguntou por que motivo ando sempre de óculos escuros e bengala!».
O João das Cautelas é cego de nascença e vende lotarias neste bairro da cidade.
Copyright © 2013 Pedro Toscano
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