4 de janeiro de 2013

#18: Separados

Vivem muitas centenas de pessoas nesta cidade e precisamente neste bar, o meu bar preferido, o bar onde passei alguns dos melhores momentos da minha vida, tinha que encontrar esta pessoa.

Já lá vão quatro anos. Quatro anos sem lhe ver a cara. E tinha que ser hoje. E tinha que ser aqui. O dia tinha começado muito bem mas suspeito que agora se vai estragar. Para cúmulo, já não posso sair pela porta por onde entrei. Ele já me viu! E vou ter que o cumprimentar … à distância claro está! Ele está do outro lado do balcão. Não há perigo.

Levantei a mão e, com um sorriso forçado, cumprimentei-o. Agora já posso tomar o meu café descansada. Pedi um descafeinado e em menos de um minuto já tinha a chávena à minha frente.
«Quem será aquela que está a falar com ele?» perguntava-me eu, olhando discretamente, por cima dos óculos. A curiosidade é algo que não dá para controlar. Mas também, que raios importa quem ela é! Afinal de contas já não estou com ele. Felizmente!

Uma das melhores sensações nesta vida é, poder saborear um bom café, num dia de muito frio. O sabor do café na boca e um calorzinho no corpo.

Eu sabia que era bom de mais. Achava estranho ele não me incomodar. Lição número um: da próxima vez, antes de entrar, ver quem são os clientes!

Ele estava a acenar-me. Quer que vá fazer-lhe companhia. Não me apetece! Acenei-lhe com a mão como que dizendo que tinha que me ir embora. Mas ele insiste! Ok, ok! Vou lá ver o que é que ele quer. E assim fico a saber quem é aquela tipa que está a falar com ele. Só por mera curiosidade …

Terminei o meu descafeinado e deixei uma moeda para pagar a conta. Agarrei na minha pequena bolsa de mão e fui até ao outro lado do balcão.

Bolas! O fulano sentado ao lado dele já se vai embora. Lá se foi a minha excelente desculpa para não ficar ali muito tempo. Já não posso voltar para trás.

Avancei com calma mas decidida. Já não o via ou falava com ele desde o divórcio há quatro anos. O meu subconsciente queria sair dali a correr

“Olá Guida”, disse-me ele. “Que grande surpresa.”
“Totalmente!” respondi-lhe eu. Aquela fulana era bonita mas aparentava ser mais velha que eu.
“Como estás?”, perguntou ele.
“Vamos andando.”, respondi-lhe.
“Se estiveres sozinha, podes fazer-nos companhia.”, disse a boazona sentada ao lado de Carlos.
“Desculpa-me Marta.” disse Carlos. “Esta é a minha … esta é a Guida.”
“Ex-mulher!”, acrescentei eu irritada.

Não tinha vontade de estar ali. E nenhuma vontade de cumprimentar aquela fulana. Mas acabei por me sentar ao lado dele.

“Estás sozinha?”, perguntou Marta.
“Não! Estou acompanhada.”, respondi-lhe eu.
“Mas estavas sozinha quando chegaste!”, afirmou ele olhando para o outro lado do balcão.
“Ahhh … estou a fazer tempo antes de ir ter com o meu marido.”, respondi, enquanto lhes mostrava orgulhosamente o meu anel de casada.
“Não sabia que tinhas voltado a casar.”, confessou Carlos.

Naquele instante fiquei sem saber o que fazer. Não sabia se rir na cara daquele imbecil ou dar-lhe uma valente bofetada. Por tudo o que me tinha feito passar durante o tempo em que fomos casados. Quase de certeza absoluta que aquela tipa era mais uma das suas conquistas. Só valia para isso. Como homem não valia nada. Como marido nada valia. Pela pinta dela, deve ser isso. Dever ser daqueles romances de dois ou três dias. Ele não era homem para aguentar muito mais que isso. No entanto, tenho que reconhecer, que  mantém um bom gosto …

“Por alguma coisa estamos divorciados, Carlos!”, disse-lhe a primeira coisa que me veio à cabeça. “Já não necessito dar-te explicações.”, acrescentei sorrindo.

A sua companheira não ficou muito contente. Carlos não moveu um único músculo da cara. Gostava de mostrar um ar duro mas tocando-lhe no ponto certo chorava que nem um bebé. Eu estava claramente a gozar com ele. E estava a desfrutar o momento.

“Nós também estamos casados!”, respondeu Marta com um tom de voz que denotava uma súbita raiva. E colocou a mão esquerda em cima do balcão para me mostrar a aliança de casamento. Que bela jóia. Agora sim, tenho inveja dela!
“Vejo que tu também não és de dar explicações.”, disse-lhe sorrindo. “A menos que na realidade não estejas casado … não levas nenhuma aliança!”, acrescentei eu depois de lhe olhar as mãos.
“Estamos casados. É verdade o que disse a Marta”, confirmou Carlos.

A minha cartada tinha caído por terra. Tinha que sair por cima e encontrar alguma coisa. Não podia sair a perder. O sangue fervia-me.

“E porque não estás com o teu marido?”, perguntou-me ele com aquele sorriso cínico que lhe conheço.
“Por amor de Deus, Carlos.”, retorqui. “Se já te disse que vou ter com ele … queres saber uma coisa? Quatro anos depois continuas o mesmo imbecil! Casado mas com vergonha de levar a aliança. E não me surpreende que tenhas comprado a aliança de casamento à tua mulher com o dinheiro que me chupaste. Continuas a mesma nódoa de sempre!”

Estava contente. Tinha conseguido sacar a raiva contida durante estes quatro anos. Levantei-me e compus o vestido. Era uma vencedora e tinha que sair dali em glória. Quando passava por ela lembrei-me de mais uma coisa.

“Espero que o ensines a fazer a lida da casa! Na tua idade, uma mulher já não se pode cansar muito!”, segredei-lhe ao ouvido. A ele dei-lhe uma palmadinha no ombro e saí dali.

Afinal o dia até tinha corrido bem.


Copyright © 2013 Pedro Toscano

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